XXII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros
De 15 a 30 de julho de 2022
É tempo de aquilombar-se!

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Roda de Prosa sobre a ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros reúne parlamentar e lideranças comunitárias no Encontro de Culturas

Por Magali Colonetti com atualizações de Narelly Batista | Foto: Mariana Florêncio, em 01/08/22

A ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros em 2017 para 240 mil hectares foi uma importante conquista para a região, mas as ameaças de redução ainda seguem.

Uma dessas ameaças foi derrubada em 2021 e a comunidade segue articulando para proteger o parque. Anelise Romero, representante do coletivo Mais Cerrado, iniciou as falas da Roda de Prosa do dia 29 de julho comentando como esse processo efetivo da ampliação é demorado. "Estamos lutando para que a ampliação não retroceda e para acelerar algo que demoraria 20 anos para 5 anos", contou. Uma das ações do coletivo é a união de mais de 80 coletivos para a produção de um vídeoclipe que tem como norte a campanha "Nenhum hectare a menos". São mais de 60 artistas, sendo eles 47 da região da Chapada dos Veadeiros, para gravação de vídeos e músicas. O lançamento dos materiais será dia 04 de setembro. 

Quem acompanha o cerrado pode ver como a monocultura vai tomando conta das terras que não fazem parte do parque. A professora Kátia Maria, presidente regional do PT, é uma dessas pessoas que ficam assustadas com esse avanço. "É importante salvar a Amazônia, mas é preciso atentar ao cerrado. Se a Amazônia é o pulmão do mundo, o Cerrado é a caixa d'água", disse em seu momento de fala. Ela também lembrou a importância de juntar as pessoas e ouvir a comunidade não só para manutenção do que já se tem, mas para criar políticas públicas que agregam valor ao que a comunidade faz gerando um desenvolvimento sustentável. Uma das empresas que estava na roda exercendo esse papel de ouvinte é a Enel representada por Letícia Freitas. "Estamos aqui para ouvir e criar possibilidades, conhecer a realidade, entender as demandas e como articular a resolução delas", afirmou. 

E elas ouviram. Por escolha própria, as lideranças Kalunga falaram depois de ouvir algumas pessoas. Elas ouviram mais uma antes de falar, a fotógrafa e ativista de direitos humanos Renata Alves. Ela trouxe para a roda a importância de pensar um turismo sustentável e nas boas ações para trabalhar com as comunidades tradicionais. "Pude viajar muito e vi muitas ideias legais e outras nem tanto. Como se pensa o turismo sustentável dentro da Chapada?"

Dona Dainda, importante liderança Kalunga da comunidade Vão de Almas, falou sobre seu lugar ser preservado, não ter desmatamento e sua preocupação com as águas do rio. Por não terem saneamento básico, eles pegam água dos rios. Segundo ela, seria bem melhor se todos tivessem poço artesiano.

"Também já falaram em barragem. Isso nos preocupa muito. Como mexe muito nas nascentes dos rios, o que a gente quer nem ouvir é sobre barragem", compartilhou. Ela também se preocupa com o turismo nas cachoeiras e cabeceiras dos rios.

Fiota, outra líder do Vão de Almas, fez questão de lembrar a importância da floresta em sua vida. Ela é seu trabalho e uma grande mestra. "A floresta está me ensinando a viver e a estudar. Eu mexo com as frutas do Cerrado, já tô querendo ir embora porque já tem cajuzinho lá", contou. Ela também falou sobre turismo e deu a ideia de dar mais possibilidades além das cachoeiras que já são pontos turísticos em suas terras. "O turista quer ver outras coisas também", falou lembrando das festas, da comida e de outros costumes que poderiam compartilhar. 

Giovana Gonçalves dos Santos, da comunidade de São Domingos, lembrou que o turismo por lá também acontece em poucos lugares. Também falou como a pandemia dificultou a vida de quem trabalha com turismo e cultura. Seu pedido foi liberar mais financiamentos para quem trabalha com esses setores. Dona Luzia, raizeira e moradora do Vão de Almas, falou e lembrou de como as plantas são importantes em sua vida. 

Uma das últimas falas foi de Sinvaline Pinheiro. E uma fala aplaudida por Dona Dainda. "Esse grito do Povo Kalunga é muito sério. A devastação do cerrado é muito grande. A região da Chapada é um dos poucos lugares preservados e que já está sendo prejudicado. Esse povo é quem vai defender nosso futuro, a natureza não tem mais capacidade de alimentar o povo", disse. 

Buscando ir além das palavras faladas, o deputado Antônio Gomide participou da roda ouvindo e na sequência apresentou uma prestação de contas do que foi feito depois da conversa que ele participou no encontro de 2019. "O que posso fazer é ouvir a comunidade e transformar em projeto ou lei para que se cumpra o que a comunidade pede", disse. 

Gomide informou que após a conversa em 2019, muitas determinações tiradas desse espaço avançaram. Foram eles: 

1. A criação da Frente Parlamentar em Defesa da Chapada dos Veadeiros com mais de dez deputado de linhas e grupos diferentes.

2. A aprovação da Lei Nº 21.013 de 25 de abril de 2021 que institui a Política Estadual de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais que promove o reconhecimento, a valorização e o respeito à diversidade socioambiental dessas populações. 

3. A aprovação da Lei Nº 21.144 de 27 de outubro de 2021, que instituiu a Política Estadual de Incentivo à Formação de Bancos Comunitários de Sementes e Mudal de Desenvolvimento Rural. 

4. A Lei Nº 21.115 de 30 de setembro de 2021 que instituiu a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica do Estado de Goiás (PEAPOG). O objetivo da implementação dessa Lei é promover ações de transição agroecológica e da produção orgânica e de base agroecológica por meio da oferta e consumo de alimentos saudáveis, com preços justos e acessíveis a todos.

5. A aprovação da lei Nº 1.727 de 08 de dezembro de 2020 que instituiu a Comenda “Jornalista Washington Novaes” concedida anualmente às pessoas ou entidades que se destacam na proteção e preservação do meio ambiente em Goiás.

Todas elas surgiram depois dessa conversa.

"É preciso promover esse debate e ouvir todo mundo. Não adianta criar algo sem ouvir a sociedade". concluiu. Dessa vez, os debates mais intensos giraram em torno do turismo e da relação da empresa que oferece energia elétrica no Estado. 

Gomide se comprometeu a construir a partir deste fórum ações diante do que ouviu. Uma das ideias que ele ouviu, e diz que vai trabalhar nela, é a questão do turismo. É o que a comunidade espera, ser ouvida e ver as coisas melhorarem.