XXII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros
De 15 a 30 de julho de 2022
É tempo de aquilombar-se!

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Roda de prosa "Quilombo dos saberes: arte-educação, comunicação e juventude"

Por Magali Colonetti | Foto: Mariana Florêncio, em 28/07/22

"Meu quilombo tá lindo como o que, vou chamar Zumbi para viver" foi o canto da produtora cultural paraibana Luciene Tavares na abertura de sua fala que deu início a Roda de Prosa "Quilombo dos saberes: arte-educação, comunicação e juventude". Segundo ela, seu quilombo está lindo com a espiritualidade que cada um faz, com sua ancestralidade e com o axé que cada um tem. "É preciso colocar pra fora, nossa voz foi calada por tanto tempo. É hora de retomar nossa história, a história real". 

Nesse primeiro momento cada um dos convidados teve espaço para compartilhar o que achava pertinente ao assunto do dia. Gerson Abrantes, também paraibano e produtor cultural, disse que rompeu com o sistema e tem aprendido a surfar por ele para viver fora dele. Falou sobre a importância de aprender a linguagem da produção cultural para fazer o que quer e colocar em prática suas ideias. "O produtor cultural trabalha com ideias e nós nascemos para ter ideias", comentou. Ele ainda trouxe para a prosa a importância de formar pessoas de dentro do território para escrever projetos e assim gerar uma autonomia nesses espaços. Ele fala isso depois de se envolver no auxílio na elaboração de vários projetos para o edital Aldir Blanc. Com uma categoria especial destinada aos Kalunga e quilombolas, muitos projetos surgiram. "Foram vários e consegui aprovar alguns. Foram 42 Kalungas com projetos e 19 aprovados. Mesmo os que não foram aprovados, agora quem escreveu tem um currículo e também já tem a experiência com a escrita de um projeto", contou. Giovana Gonçalves, raizeira e moradora da comunidade de São Domingos em Cavalcante, aproveitou seu momento de fala para compartilhar sua alegria ao ser contemplada com dois projetos nesta lei. "E esse dinheiro ajudou muito durante a pandemia", contou. Ela ainda fez o pedido para que continuassem fazendo isso para a comunidade, auxiliando na elaboração desses projetos e criando mais alguns. 

O não saber fazer um projeto é algo muito comum e isso pode gerar perdas. Aava Santiago, vereadora de Goiânia, diz que uma das maiores tristezas do período em que ela esteve no movimento da juventude foi ver dinheiro público se perdendo por falta de projetos. Essa incomodação virou ação e ela criou um projeto focado em preparar novos produtores culturais. "Uma vez um prefeito de um município com 5 mil pessoas chorou na minha frente porque pagou um valor por mês para uma empresa ajudar e eles não fizeram um projeto sequer.  Dai vamos lá em Brasília e ouvimos 'tem dinheiro, mas vocês não mandam projetos'. Isso é muito cruel. Como enviar um projeto se a gente não sabe fazer um projeto?", indagou. E o fazer o projeto pode ser a parte mais fácil nesse processo. Sabe-se que ao ser contemplado é preciso seguir um cronograma e no processo estão alguns desafios. Aava deu o exemplo de um jovem que quase precisou devolver sua verba porque não fez foto de um banheiro químico. Durante o evento ele fez fotos de vários locais e do que aconteceu, mas não fotografou este item. Quem trabalha com produção cultural sabe o quanto isso é um problema. "Dizem que a gente faz farra com a Lei Rouanet. O que não dá pra fazer é farra com projeto cultural", afirmou lembrando de toda a burocracia e detalhes exigidos. Com sua fala, ela lembra da importância de ir além do ensinar a escrever um projeto, mas também ensinar todas as etapas de um projeto. "É preciso acompanhar até o final". 

Ao saber fazer um projeto, um caminho se abre para a realização dessas ideias, para uma melhora econômica da comunidade. Quando é falado em economia, o produtor cultural Marx Maciel lembra que é preciso mudar a ideia de que quem vive com produção cultural vive de luz. Seu protesto foi para que esse setor seja mais valorizado e que comece a valorizar quem trabalha com ele. "A cultura é 2,6% do PIB, isso não é pouco não. Precisamos reconhecer que nosso fazer dá trabalho", disse. Ele ainda rebateu a felicidade sobre o investimento de 2 Bi em cultura nos próximos anos. "O agronegócio recebeu 15Bi e não precisa comprovar nada. Precisamos retomar a narrativa de dobrar orçamento, de fortalecer o setor e dizer que a cultura merece sim um ministério". O fim de diversas políticas públicas e a redução de verba para a cultura é algo que realmente dificulta muito quem está nesse setor. 

Mas existem outras dificuldades e Liane Preuss, coordenadora pedagógica do projeto Turma que Faz, lembrou alguns passados no projeto em que ela trabalha. O primeiro é não ser um projeto de educação formal segundo as regras. O segundo é que a metodologia de trabalho é própria e tem um formato relacionado à educação popular. Mas o terceiro, e principal, é a falta de continuidade dos projetos. É preciso fazer malabarismos para não perder a metodologia e dar continuidade ao trabalho. Para não se adaptar ao que existe e perder a real essência da ideia. 

A continuidade é algo importante e necessário. Ildimar lembrou das dificuldades surgidas depois da morte do pai. Ele era o presidente do quilombo e acabou centralizando a administração. A família teve dificuldades para entender os processos administrativos. "Nos vimos em um momento que necessitávamos de dinheiro. Juntou muita gente para nos ajudar a escrever um projeto. O projeto foi aprovado, mas veio mais uma dúvida: agora como executar? O projeto também depende da comunidade para que ele seja realizado. Depois vem a prestação de contas e agora, como fazer?". Ela comentou o quanto é difícil todo esse processo, mas quando pensa em desistir ela lembra que tem muita gente passando fome. Como disse Gerson, é preciso ter coragem para ser gestor de projetos culturais. Também é preciso se formar na arte da burocracia para que fique tudo mais prático. 

Todos concluíram que é um desafio, mas também viram o quanto de possibilidades e necessidades existem nas comunidades tradicionais. Existem boas ideias, existem motivações, mas é preciso preparar a comunidade para aproveitar os editais e fomentar cada ideia.