XXII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros
De 15 a 30 de julho de 2022
É tempo de aquilombar-se!

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A importância de ouvir as comunidades para criar políticas públicas sustentáveis

Por Magali Colonetti | Foto: Mariana Florêncio, em 27/07/22

Pensar e fazer políticas públicas foi o que norteou a roda de prosa "Encontro de lideranças  Kalunga". Adão Fernandes mediou a conversa e em sua fala trouxe o que ele acredita ser um grande problema quando é falado sobre o assunto. "Essas políticas pensadas e construídas para as comunidades tradicionais sempre chegaram de cima para baixo. Nunca tiveram a audácia de adentrar as comunidades e fazer uma roda de conversa como essa, com seu projeto e provocando a comunidade para saber como elas querem, como elas pensam e como desejam que sejam construídas essas políticas públicas. Nada adianta pensar uma política pública sem a comunidade presente, ela pode até ser uma política pública boa, mas ela não será sustentável se não atender as necessidades da população", comentou. 

Ouvir as pessoas é o primeiro passo para a construção de algo realmente efetivo e isso foi feito ao dar espaço para as falas das lideranças do povo Kalunga. Fiota trouxe seu papel como liderança da sua comunidade, também da sua casa e família. "Eu mexo com minha oficina de sussa que é uma tradição cultural. Nós não 'qué que' acabe, nós 'que' que cresça. A sussa é alegria, traz energia, emoção, um sorriso e um 'evaporamento' dentro de você. Se você sabe dançar, ou se não sabe, ela te puxa também", contou.

Persilla dos Santos Rosa, também nascida e crescida no Vão de Almas, em Cavalcante, falou sobre sua vila ser muito valiosa e cheia de recursos. Mas lembrou o quanto é difícil sair de lá. Santana trouxe a força da coletividade no Vão das Almas. "Eu trabalho com um grupo de Império e com meu grupo de sussa. O pessoal sussa ajuda no Império e o Império ajuda na sussa".

Já Calixto Souza Santos comentou seu trabalho como guia na região de Cavalcanti, a sua única profissão oficial, e suas outras profissões como a de ser lavrador e raizeiro. Mas aproveitou sua fala para pedir uma ajuda: "Vocês que tem mais condições, que 'mexe' com projetos, coisas do governo, peço pra ajudar nois, pra melhorar as coisas lá".

Dona Luzia trouxe sua preocupação para com a continuidade e o manter dos seus conhecimentos. "Meus netos não 'vai' (continuar), moram na cidade e não querem mais. Meus filhos não tem interesse. Quem mora na cidade não quer voltar. Esse povo de hoje não quer nada", falou.

O pensar no jovem e o passar da cultura Kalunga também é a preocupação de Arlene Rodrigues. Formada em educação do campo, ela fala sobre a importância de ensinar os saberes Kalunga na escola e de viabilizar o acesso à educação quilombola voltada para a comunidade. "O ensino básico que tem não dá suporte a nossa cultura, não são só nos livros que a gente aprende"

Trazendo a fala das iniciativas e empresas que vão até as comunidades realizar projetos e buscar implementar políticas públicas, Kellyn representou a Enel, empresa de distribuição elétrica do estado de Goiás. Integrante da equipe de sustentabilidade e socióloga, comentou que a empresa vem buscando cada vez mais trazer esse olhar para entender as perspectivas de quem vive nos territórios e respeitar as culturas locais. "Temos desenvolvido hortas comunitárias, apoiamos coletivo de costureiras… o que sempre digo é que 'quem sabe como o sapato aperta é quem calça o sapato'. Por isso é importante estar nos territórios e ouvir quem vive a realidade". Ela ainda comentou sobre como trabalham a pobreza energética que vai além da incapacidade de pagar a energia elétrica. A pobreza energética aqui é a que cria empecilhos para o desenvolvimento da comunidade. "É a dificuldade de desenvolver suas reais potencialidades. Como podemos pressionar para que políticas públicas sejam criadas? Sabemos que 99% das pessoas têm acesso a energia elétrica, mas esse 1% são muitas pessoas e isso pode impactar no desenvolvimento delas", comentou. 

Cada fala e contribuição trouxe diversas possibilidades e alguns direcionamentos. Cada compartilhar trouxe suas necessidades e os caminhos que levam a alguma solução já que a todo tempo novas necessidades vão surgindo. O climatologista Paulo Borges, um dos presentes na conversa, trouxe uma pergunta muito importante sobre um assunto que necessita de muita atenção. Ele questionou se a crise climática mudou a vida das pessoas na comunidade. Adão Fernandes foi quem respondeu. Há 15 anos ele tem contato com agricultura familiar e notou a diferença nesses últimos anos. "A mudança climática afeta o ciclo produtivo. Se antes era plantar arroz em outubro e colher em janeiro, hoje não temos tanta certeza disso porque não sabemos se chove ou não chove". Ele também falou sobre como a cadeia alimentar também já foi afetada. O cerrado não produz mais alimentos para os animais, como não se sustenta mais. 

A roda de prosa fez parte da programação do XXII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.