XXII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros
De 15 a 30 de julho de 2022
É tempo de aquilombar-se!

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Mestras da comunidade Kalunga: mulheres e seus saberes e fazeres tradicionais

Por Magali Colonetti | Foto: Daniela Nunnes, em 26/07/22

Dona Dainda, Dona Luiza, Dona Benedita e Dona Marialina são mestras, raizeiras e matriarcas do Vão das Almas, território do Sítio Histórico Kalunga. Seus ensinamentos e aprendizados tem como fonte os saberes e fazeres tradicionais de quem aprendeu com a vida a sobreviver. As dificuldades e lutas estiveram presentes em suas falas na Roda de Prosa "Mestras da Comunidade Kalunga: mulheres e seus saberes e fazeres tradicionais".

"Sou Kalunga nascida e crescida no Kalunga. Eu criei oito filhos com trabalho de roça. Sofri demais para criar meus filhos e meus filhos sofreram para criar os deles. Muita gente morreu sem conhecer a cidade" contou Dona Benedita. Quando ela fala sobre não conhecer a cidade, é sobre a dificuldade de sair da comunidade. Não havia uma estrada ou possibilidade de atravessar o rio. Na época das chuvas ficava ainda mais difícil.

O lutar, o isolamento, o trabalhar e o continuar trabalhando também estiveram na fala de Dona Dainda. "A gente morava muito isolado, só saia de lá a pé ou em cima do lombo do burro. Não tinha uma canoa que prestava para atravessar o rio. Hoje mudou muito. Antes a gente morria lá por falta de socorro. Mulher morria de parto, mordida de cobra porque não tinha saída. Eu falo para os meus filhos que eles encontraram uma facilidade para criar os filhos que eu não tive", contou. 

Uma comunidade inteira precisou desenvolver seus saberes, suas práticas e encontrar saídas para essa falta de condições básicas de vida e acesso ao sistema de saúde. Quando precisavam, ou ainda precisam, procuravam pessoas como Dona Marialina com suas garrafadas. Ela falou orgulhosa que sempre tem algo para oferecer para quem a procura.

Também surgiram mulheres sábias como a Dona Luiza, uma grande raizeira da comunidade. De conversa pouquinha, como ela diz por não ter estudo, mas de um conhecimento gigante, ela diz orgulhosa que todo mundo que pediu remédio pra ela ficou bom. "Recebi meu certificado de raizeira e vou vender minhas coisas em Brasília", contou feliz. 

Além das mestras, outros convidados compartilharam seu observar sobre a sabedoria tradicional. Um deles foi Adão Fernandes, professor, doutorando na Universidade de Brasília e Kalunga. Ao ouvir os depoimentos dessas mulheres, Adão lembrou como as dificuldades com a saúde e alimentação levam a entender como as comunidades desenvolveram esses saberes relacionados com as suas realidades. E ainda ampliou o que ele observa como sendo esses saberes. "Eles criaram formas de comunicação entre eles e a natureza. Vai além da medicina, benzimentos, alimento ou artesanato, é importante que a sociedade possa entender quem são esses povos e o que querem", comentou.

Felizberta Pereira da Silva, da cidade de Natividade no Tocantins, trouxe para a roda seu conhecimento como raizeira e mestre de saberes popular. Filha de preto e indígena, aprendeu com seus ancestrais e fica feliz ao já explicar algumas coisas para a sua neta de nove anos. Um de seus comentários foi sobre o preconceito que ainda existe com quem é raizeiro e compartilha seus saberes.

"A prática de raizeiro é discriminada. Alguns me chamam de feiticeira e dizem que faço macumba. Se for pra ser feiticeira, então vou continuar sendo", falou sorrindo. Ela também foi quem respondeu a pergunta de Mariana Santos. Com sequelas do COVID, ela perdeu 30% da audição e pediu dicas para tirar as inflamações do corpo. "Em 1 litro de água coloca chá de folha de louro, com três dentes de cravo, três folhas de goiaba, 1 gota de limão. Também tem o chá de quino do serrado e folha do moreira para desintoxicar".

Os compartilhares despertaram lembranças de algumas mulheres presentes. Uma delas foi a Juliana Alves, da paraíba. Neta de avó raizeira, compartilhou que sua avó começou a trabalhar com as plantas por necessidade, por morar no interior e sofrer com a dificuldade para chegar ao hospital e ter acesso aos remédios. E falou sobre como essa sabedoria tem um importante impacto ambiental. "Os saberes e fazeres também são ferramentas para a preservação ambiental", disse. 

A roda de conversa aconteceu na Casa Cavaleiro de Jorge e fez parte da programação do XXII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.