XX Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros
De 25 de Julho a 23 de Agosto de 2020

Notícias

Dona Dainda, da comunidade Kalunga, durante a roda de conversa

Permanecer Kalunga: a luta de um povo em busca da sustentabilidade

A dificuldade em vender a produção da comunidade Kalunga e, assim, criar possibilidades de renda e permanência no território foram problemas discutidos na mesa redonda sobre alternativas sustentáveis para o Cerrado, realizada no XVII Encontro de Culturas. 

“Tenho uma marca de roupas, a Tuia Kalunga, que faz um resgate da identidade e da história do nosso povo e busca ser uma alternativa para a permanência da população na comunidade, mas ainda é muito difícil escoar nossa produção”, explica Maria Helena Serafim, a Tuia. Com isso, continuar vivendo na região torna-se um grande desafio aos jovens. “Tenho duas formações superiores, mas que não me valeram de nada lá dentro. É muito difícil para quem quer ficar, porque fora dali é tudo mais fácil. O que vemos são as comunidades se esvaziando”, diz. 

A saída desses jovens da comunidade afeta o território e a própria cultura da região. “As crianças só vão valorizar se vivenciarem sua cultura, que é viva, prática. Nossa cultura não é a dos livros. Mas o que vemos hoje é que os mestres não têm para quem repassar seus saberes”, lamenta Tuia. 

“Até hoje sobrevivi com as coisas de lá [Kalunga], mas não tem muita saída. Passo um ano tecendo tapete e não consigo vender. Meus filhos saíram de lá e não quero que voltem porque se em outros lugares não está bom, sei que lá está pior”, conta Dona Dainda. O sentimento é o mesmo de Dona Fiota, que lembra que a população recebe apoio quando sai do quilombo – quando vai até o hospital, quando entra na universidade e ganha uma bolsa de auxílio –, mas não enquanto vive lá. “Se vocês pensam que o povo de Vão de Almas e de Vão de Moleque sofre, vocês ainda estão pensando pouco”.

A mesa ainda contou com uma apresentação do projeto Origens Brasil, que por meio de uma plataforma tecnológica, facilita a venda dos produtos das comunidades tradicionais para empresas. “Desta forma, conseguimos mostrar de onde vem o produto, quem o produz, as características da região e da comunidade”, explica Helga de Oliveira Yamaki, da Imaflora, responsável pelo projeto. Ela acredita que um dos grandes benefícios da plataforma é sensibilizar o consumidor sobre suas escolhas, além de alcançar as comunidades sem custos para elas. “Elas ficam responsáveis por fotografar os produtos, fazer o cadastro das pessoas e ajudar na monitoração do impacto. Isso também reduz muito os custos de verificação, que antes recaíam na comunidade e agora podem ser feitos por meio das parcerias pela plataforma”.

Ajuda externa

Os representantes da comunidade Kalunga ainda falaram sobre os projetos externos que são levados para ajudar a comunidade, mas que são criados sem ouvir os moradores, além de não terem continuidade. “Projeto no papel já teve até demais. Com político também não dá pra gente contar”, diz dona Dainda. Os moradores também apontam que a maior parte do território Kalunga fica esquecida dos projetos criados para eles. “Quer saber o que é Kalunga? Desce, vai pra Vão de Almas, Vão de Moleque. As pessoas só chegam até Engenho, que é mais perto, e dizem que conheceram o quilombo”, reclama.