XX Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros
De 25 de Julho a 23 de Agosto de 2020

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Silvan Galvão fala sobre carimbó, cultura, mídia e política no XVII Encontro de Culturas

O carimbó amazônico invadiu o palco do XVII Encontro de Culturas na noite da quinta-feira, 27 de julho. Um dos mestres deste gênero musical, Silvan Galvão, que hoje mora no Rio de Janeiro, mas é da região de Santarém, no Pará, tem se destacado no cenário da música popular brasileira.

Na entrevista, ele conta a história do carimbó no Brasil e critica o esquecimento do País em relação à Amazônia. Fala também sobre as políticas públicas de fomento à cultura e analisa a política brasileira. Para ele, a mídia tem manipulado as informações sobre a crise no país e é responsável por deseducar o povo brasileiro.   

Qual é a origem do carimbó?

O carimbó tem origem indígena, com influências africanas e europeias. Na época da colonização, esses três povos se encontraram e o carimbó é fruto disso. Proveniente do Norte, ele veio do Pará e no início era praticado com cunho religioso, em homenagem ao santo padroeiro São Benedito, o santo dos negros e dos escravos, e também ao Divino Espírito Santo, numa determinada época do ano. Com o tempo, o gênero foi ganhando mais força e se popularizou. Virou motivo pra outras comemorações e perdeu um pouco do religioso. Mas até hoje tem um grupo em Santarém Novo que faz um carimbó mais tradicional e religioso. Ele não apresenta sensualidade nos movimentos, os homens tocam todos de paletó longo, que cobre até o pescoço.  

Na maioria dos outros lugares é diferente: tem o carimbó rural, o praiano, o do Marajó... Cada um com suas particularidades. Cada carimbó traz na sua música e no seu toque a dança, a poesia, a vivência e toda a história do povo de sua região. Nas letras eles falam isso. As indumentárias falam muito do seu lugar, assim como os tambores, a instrumentação. Então é muito mágico, e o jeito de dançar e tocar é muito diferente de um lugar pro outro. 

O carimbó é muito rico, porque vem de todas essas regiões profundas do Brasil, transpirando tudo o que a cultura de cada local tem na festa, música e dança. Com tantos esquecimentos e abandonos que a região Norte tem, principalmente o interior, a visibilidade e o interesse das pessoas de outros estados e países pelo carimbó é muito importante.

A valorização à diversidade cultural corresponde ao que deveria ser?

Quando estamos falando de cultura, acho que começa de dentro. Na própria comunidade onde se pratica o carimbó se tem muitas barreiras, porque a grande mídia, a internet, o celular e a televisão seduzem muito. E a grande mídia vai contra não só o carimbó, mas contra todas as manifestações de cultura popular no Brasil. Você não a vê mostrando as raízes do povo brasileiro. É uma programação comercial, montada, frágil e descartável; não é de raiz, não tem uma história, um contexto e alicerce. Cada vez mais é difícil furar as grandes barreiras da mídia pra mostrar de fato como a cultura popular é.

Mas o que está acontecendo agora e surtando um efeito contrário é que a grande mídia está tendo uma overdose de tudo isso. As pessoas querem mais. Pessoas que não são superficiais e buscam além, pesquisam. É aí que a cultura popular ganha força. Tem uma juventude neste cenário se abrindo para conhecer de fato o Brasil. Costumo dizer que a Amazônia e o Pará são amputados do País, porque pra você ir à capital já é um problema. Não é questão de estrada, é de preço mesmo: você consegue ir ao exterior e não a Santarém. Os valores são muito altos. 

Então vamos lidando com todas essas dificuldades que temos. Por isso é muito legal ter encontros, festivais de cultura, como este, onde as pessoas vêm beber da fonte. É muito importante a diversidade que eles promovem, com gente de várias regiões. As pessoas fazem uma viagem pra todos os locais num lugar só. É de suma importância. Inclusive os artistas que vêm, se encantam. Sempre que participo de algum encontro saio encantado com uma cultura diferente, que não conhecia. É preciso lutar para ter festivais e encontros como este. É um contra-ataque a esse turbilhão de merda que a mídia joga pra gente. 

Você falou de mídia na questão da visibilidade, mas e as políticas de fomento à cultura?

Os editais poderiam ser simplificados ou mais específicos, pensando que a maioria do pessoal da cultura popular não tem experiência ou perícia pra se inscrever. Fazer um projeto pra edital é complicado. Para os artistas da cultura popular, que moram em regiões de difícil acesso, é muito complicado encontrar um produtor que entenda disso. Deveria ter mais capacitação pra esses mestres. Existem alguns prêmios que permitem áudios e vídeos, compreendendo a oralidade da cultura tradicional, mas eles são pequenos. Os editais que de fato garantem uma boa estrutura e verba são mais complicados. Tem que fazer planilha, prestação de contas... É algo que infelizmente a maioria não sabe fazer. Como estou morando no Rio hoje, tenho acesso a produtores experientes e consigo, mas e quem não saiu dos interiores?

Você volta e meia fala nas suas apresentações “Fora Temer”. O que está achando do cenário político do país?

Tem gente que diz que se tirar o Temer vai virar uma bagunça, mas tem que assumir. Uma hora o balão vai explodir e acho que a gente não deve ceder ou dar um passo pra trás. O caos sempre vai existir em qualquer revolução. As pessoas estão de olhos abertos e querem que as coisas mudem, e elas têm que mudar. No cenário político está acontecendo muita coisa. É muito obscuro. Eles soltam o que querem, já têm um cronograma pra engambelar a gente. Acho que a gente está meio ferrado por um tempo, temos que esquecer um pouco, fazer a nossa arte e cultura. Porque se cruzarmos os braços e esperarmos o poder público, não vai ter. Acho que estamos fazendo isso para os nossos filhos. Tem que ter esse embate e confronto pra colher lá na frente. Se cair no comodismo, a coisa só vai piorar. Educação e cultura são a base de tudo para se preparar um bom cidadão.