XI Aldeia Multiétnica também é espaço de resistência indígena

POR Andressa Santa Cruz 30/11/-0001

A Roda de Prosa dessa manhã de domingo, 16, era sobre “Terras indígenas e terras Kayapó: conceitos e controvérsias públicas”, mas a conversa foi além. Graças a colaboração do cacique Raoni e de outras lideranças presentes, histórias foram recontadas, dores foram divididas e soluções foram propostas. Tudo para fortalecer a resistência indígena nos dias atuais.

Como hoje era o dia dos Kayapó, além das festas e ritos tradicionais, a programação contou com a Roda de Prosa para debater a realidade da etnia. Porém, os Kayapó recusaram o protagonismo e deram espaço a todos os povos presentes para se pronunciar. Quem abriu a roda foi o antropólogo João Lucas Moraes da Universidade de Brasília (UNB). “Difícil falar sobre os Kayapó com tantos Kayapó aqui”, assim ele começou sua fala, reconhecendo seus limites como não-indígena. Há quatro anos, João se envolveu pela primeira vez com os Kayapó e hoje é tido como sobrinho por Paiakan, importante liderança Kayapó. Mas Kayapó não é o nome legítimo. João explica que “na verdade, Kayapó é como os outros povos os chamam. Eles mesmos se denominam Mebêngôkre”. Segundo ele, os Mebêngôkre tem tradição seminômade, com costume de revezar o tempo entre aldeia e expedições territoriais. Mas foi por consequência do contato não indígena que eles se instalaram na região da bacia hidrográfica do Xingu. “Com a invasão e com as doenças do homem branco, nós fomos subindo, subindo, subindo até chegar no Xingu”, completa Paiakan e, com isso, João se sentou e os indígenas assumiram a roda.

Antes de dar sequência a conversa, Paiakan fez questão de cumprimentar os participantes em vários idiomas, começando pela saudação Kayapó. “Akatimej, bom dia, good morning, buenos días, bonjour. É um costume nosso. Somos um povo adotivo”. Assim como eles adotaram João, os Mebêngôkren se orgulham pela receptividade a novas culturas. Paiakan conta que, quando criança, não tinha rede ou banquinho de madeira em sua aldeia. “Só tínhamos inteligência de guerra”. Hoje, eles continuam sendo um povo guerreiro, mesmo tendo adotado conhecimentos de outros povos. Inclusive, foi assim que o cacique Raoni Metuktire, também Mebêngôkre, fomentou os saberes que populariza mundo afora.

Com 15 anos, Raoni começou a alargar o lábio inferior com um pedaço de madeira. E foi com essa mesma idade que ele teve seu primeiro contato com o homem branco. Com o tempo, o pedaço de madeira foi crescendo e sua compreensão sobre o mundo não-indígena também. “O que eles me ensinaram, está em mim. E eu uso a fala deles para defender meu povo”, revela Raoni, se referindo à Orlando e Cláudio Villas-Bôas, que ele define como õbikwa (amigo). Raoni fala e entende o português, mas tem o costume de se pronunciar sempre na sua língua natal. Durante a roda, Paiakan o traduzia. “Cláudio já explicava que futuramente iria acontecer o que está acontecendo hoje, e me dizia: escuta o que eu estou falando para você, aprenda. Não esqueça que você tem que ser você para mais tarde, você ajudar o seu povo.” Atualmente, Raoni é uma liderança indígena conhecida e reconhecida internacionalmente pela sua atuação na luta pela garantia dos direitos indígenas.

 “Orlando também resgatou meu povo”, conta Tunuly Yawalapiti ao assumir a roda. Em 1954, uma epidemia de sarampo dizimou parte de sua etnia. Dados oficiais apontam que restaram apenas 25, mas Tunuly afirma que foram 10. “7 homens e 3 mulheres. Eles tiveram que ir morar em outras aldeias do Xingu, mas Orlando foi atrás deles e juntou todos. Foi ele que encontrou meu pai com os Kuikuro”. Tunuly é filho de pai Yawalapiti e mãe Kamaiurá. Foram os irmãos Villas-Bôas que estimularam os casamentos dos Yawalapiti com outros povos e a criação do Parque Indígena do Xingu, e graças a essas iniciativas, hoje os Yawalapiti são em cerca de 200 indígenas.

Quando as caravelas portuguesas atracaram no Brasil em 1.500, os povos originários do nosso país passaram a ser esquecidos e dizimados. Mais de cinco séculos depois, ainda estamos vivendo as consequências desse massacre étnico-cultural. “Nós não precisava de nada, nós era feliz. Caçava, pescava. Agora o rio tá envenenado, não pode mais pegar peixe. Homem branco veio e faz isso, sem pena dos filhos dele que vão nascer. A gente cansa de falar. Nos, índio, não destrói, nos preserva”, desabafa a liderança Fulni-ô, Towe. Ele aproveitou a roda para lamentar as dificuldades de seu povo que também assombram as demais etnias brasileiras.

Os Fulni-ô vieram do sertão nordestino para somar na XI Aldeia Multiétnica. Eles são atualmente os únicos indígenas da região Nordeste que conseguiram conservar sua língua natal. Twnlyfowá fez questão de fazer sua fala no idioma de sua etnia e foi traduzido por um parente para que todos os presentes pudessem entender seu discurso. “500 anos de contato com branco. Não podemos mais caçar e nem pescar diariamente. Comercializamos nossos adornos sagrados e isso dói. Pedimos licença aos nossos ancestrais para poder alimentar nossas famílias”. A venda de artesanato e as apresentações tradicionais são um meio de sustentar a existência dos indígenas e de divulgar sua cultura, por isso a relevância de eventos como a Aldeia Multiétnica.

O indigenista Fernando Schiavini é aposentado pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e é um dos idealizadores da Aldeia Multiétnica. “A gente faz esse evento também para conseguir aliados. E os indígenas sempre poderão contar com essas pessoas”, relata ao assumir centro da roda. João Lucas Moraes, os irmãos Villas-Boas e Fernando Schiavini são exemplos de que os indígenas não estão sozinhos nessa resistência, e quanto mais aliados, melhor. Até porque, não são só os povos originários do Brasil que estão sendo atingidos e o próprio Cerrado ilustra essa devastação.

O bioma que há onze anos sedia a Aldeia Multiétnica abriga oito das 12 principais bacias hidrográficas do Brasil. Porém, no Dia Mundial da Água (22 de março) deste ano, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado divulgou que mais de 50% de sua vegetação já foi desmatada e isso é uma causas da crise hídrica no país. Ou seja, não são só os indígenas que estão falando. Há pesquisas e registros que comprovam os impactos socioambientais. “Estamos indo para o abismo e a gente sabe. Só que o dinheiro fala mais alto”, conclui Fernando.

Uma das intenções da Aldeia Multiétnica é resgatar a sabedoria tribais para solucionar os desafios da contemporaneidade. Especialistas da Plataforma para Biodiversidade e Serviços do Ecossistema da ONU (Ibpbes) afirmam que os conhecimentos indígenas são aplicáveis na agricultura, manejo florestal e exploração dos oceanos. Mas, para conseguir preservar nossa biodiversidade, os não-indígenas devem se aproximar dos povos que originaram o Brasil e somar na luta pelos seus direitos, como a própria Constituição Federal assegura no Capítulo VII, artigo 231: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.”

Quando essa clausula foi incluída na nossa Lei Maior, o Kayapó Paiakan estava lá, em outubro de 1988. Ele conta que, quando viu a aprovação no placar do Congresso Nacional, comemorou com os parentes que também estavam assistindo à sessão constituinte. “Foram 487 votos a favor de índio”. Ao relembrar esse momento, o Paiakan se firma no centro da roda para dizer: “até meu último minuto de vida, eu vou sonhar com esse reconhecimento”.