Cacique em luta

POR Marina Almeida 16/07/2017

O cacique Raoni, liderança reconhecida internacionalmente por sua luta pelos povos indígenas e pela preservação da floresta amazônica, participou das atividades da XI Aldeia Multiétnica e falou aos povos das diversas nações presentes sobre a importância de valorizar a cultura indígena. "Vim por um motivo só: para mostrar minha força, meu pensamento para os parentes. E para pedir união para nos fortalecer." 

Apesar de falar um pouco o português, Raoni faz questão de se expressar em sua língua e seu neto é o responsável pela tradução. Embora em uma língua diferente, a fala do cacique supera barreiras linguísticas, ele gesticula, aumenta o tom de voz para dar mais ênfase ao seu discurso e se levanta para falar olhando nos olhos de quem o ouve. "Parentes, jovens, vocês têm de me escutar. Não gosto de mineração, de hidrelétricas, de Belo Monte em terras indígenas, não gosto de desflorestamento em terras indígenas." 

Em suas falas, ele ainda lembrou do primeiro contato que teve com o homem branco, que ocorreu quando ele ainda era um jovem de 15 anos, em 1954, e dos aprendizados com os irmãos indigenistas Villas Boas. "Até hoje lamento pelos povos do passado, porque não tive ideia do que fazer com a chegada do branco para nós proteger naquela época. Lembro que Cláudio Villas Boas falava desde o começo que coisa ruim deixa você fraco. Segui o caminho que me falaram e até hoje defendo nossas terras, defendo vocês todos, não só a mim."

Aldeia Multiétnica

É a segunda vez que Raoni participa da Aldeia Multiétnica e ele disse estar feliz por encontrar outros indígenas. Ele também gostaria que as discussões realizadas no evento dessem origem a um documento para ser apresentado aos governantes: "precisamos dizer para as autoridades que eles tem de respeitar os povos indígenas".

Raoni também se preocupa muito com a perda da cultura indígena. "Os jovens estão já muito envolvidos com a cultura dos brancos. Se continuar assim, não teremos mais território. Destruição da cultura não é só por parte do branco, ocorre por parte do índio também, mas é preciso preservar. Só assim teremos força."

Estudo

O cacique defende que os povos indígenas aprendam a cultura dos homens brancos e sigam estudos mais avançados para poder defender seu povo e participar da política e de organismos institucionais como a Funai. Por outro lado, ele também se preocupa que ao frequentar a cidade, o jovem se acostume, se adapte e não queira mais voltar para sua aldeia. 

"O jovem com o conhecimento do branco, com formação, tem de escrever sua história, a riqueza da cultura que vive. Tem de documentar isso enquanto eu estou vivo. Quero apoiar e entregar para o governo mostrando que temos nossos direitos." Ele ainda conta que seu povo, os Caiapó, já fizeram essa documentação e que ele vai apresentá-la para as autoridades brasileiras. 

"Também temos força, somos capazes de lutar, vocês não reconhecem, mas temos, sim. Senão já tínhamos acabado. Preparem o documento, esperem acabar essa bagunça do governo deles e entreguem para quem assumir depois. Quero todos os caciques, de todas as etnias, unidos para falar com eles."

O avô pelo neto

Beptuk Metuktire, o neto do cacique Raoni, tem atuado desde o início do ano como tradutor do avô. Até então, o jovem de 21 anos só tinha saído de sua aldeia até Colíder (MT), cidade mais próxima à aldeia em que vive. Ele diz que o avô conta muitas histórias sobre os tempos antigos, os anciãos, e dá muitos conselhos aos jovens. “Ele fala para preservarmos nossa cultura, nossa história, que é por isso que somos reconhecidos. Sem isso, não somos nada”, lembra o neto.

Beptuk pensa em fazer faculdade de administração e a escolha também segue os conselhos que ouviu: “meu avô diz que é importante estar nas instituições, entender como elas funcionam para poder ajudar nosso povo”.

Para Beptuk, o cacique Raoni tem tanto reconhecimento por ter sempre preservado sua cultura, sua história, e por lutar por isso até hoje.