Foto: Melito | Na foto, Towê Fulni-ô com o presente ofertado pelos povos do Alto Xingu na abertura da XI Aldeia Multiétnica

Cantos tradicionais indígenas poderosos marcam a abertura da XI Aldeia Multiétnica

POR Andressa Santa Cruz 16/07/2017

Na abertura da XI Aldeia Multiétnica, o sol esperou a última dança para então se pôr completamente. A programação do primeiro dia de evento contou com atrações de todas as etnias presente, mas o destaque eram as comunidades do Alto Xingu (MT). Eles celebraram a Festa do Pequi e cederam o pátio de sua casa para os outros povos indígenas. Dentro e fora da oca xinguana, as sete etnias dançaram e exibiram suas tradições das 16h até a chegada do crepúsculo.

Antes das apresentações, os indígenas se pintaram com urucum e jenipapo. Aproveitaram o calor do sol para secar a tinta e afugentar o vento gelado do Cerrado, mas o frio não entrou na oca xinguana. A casa esteve lotada durante todas as danças e se esquentou com o calor humano. Enquanto os viventes se apertavam em um circulo, no meio aconteciam as mostras culturais.

Os primeiros foram os anfitriões: os povos do Alto Xingu. Usando colar de caramujo e brinco feito de pena de tucano, Arifira, cacique dos Matipu, puxava as cantigas e as crianças, mulheres e homens faziam o coro em seguida. Tudo sincronizado com as passadas dos pés descalços. Segundo Arifira, as músicas são gracejos. “A gente canta sacanagem. Os homens brincam com as mulheres. Depois é a vez das mulheres brincarem com a gente”. E foi nesse clima de piada e alegria que os xinguanos comemoraram a Festa do Pequi, feita para inaugurar sua oca na XI Aldeia Multiétnica. A tradição original também conta com mulheres e homens jogando pequi uns nos outros. “Mas não tem pequi”, lamenta o cacique.

Em seguida, foi a vez dos Kaiapó-Mebêngôkre (PA) que se enfeitaram com colares, braceletes e pulseiras de miçanga. Eles dançaram e cantaram a cantiga da mandioca. “A gente canta essa para celebrar o batismo de uma nova vida”, explica Pawire com sua filha de um ano no colo, a Irekroro. Quando acabaram de se apresentar, os Kaiapó deixaram a oca para que os Krahô (TO) dessem sequências às apresentações.

Assim como todas as outras etninas, os Krahô cantaram na língua natal de seu povo e, em português, a música celebrada significa “cantiga de passarinha, que é mais para animar o povo”, explica Odilio Peran. Para se apresentar, Odilio teve o corpo todo desenhado de urucu. “Isso tudo sai no banho de rio. E o rio está gelado”, ele conta e ri.

Depois quem assumiu foram os Xavante (MT). Todos homens, de shorts vermelho e também pintados de urucu. “Nossa dança é forte, tira doença. Tira dor de barriga, dor no peito”, relata o Xavante Reinaldo e assegura que a cura tocou todos os presentes. Em sua aldeia, tem-se o costume de iniciar esse tipo de ritual à tarde seguindo sem dormir, sem comer e sem beber água até a manhã do outro dia. “E tem várias danças. De pular, de rodar...”.

Os Fulni-ô (PE) vieram do sertão nordestino e, mesmo após encerrarem as danças dentro da oca xinguana, seguiram para o pátio à céu aberto ainda no ritmo e convidando os viventes a se juntarem nas danças. Apesar de também ser Fulni-ô, Xumaya Xya foi pintada com carvão e jenipapo por duas Kaiapós-Mebêngôkre e se apresentou junto dos Kariri-Xocó (AL). Ele simbolizou perfeitamente a intensa troca cultural que Aldeia Multétinica é capaz de proporcionar.

Junto de Xumaya, se apresentou o Ihdru que esta acostumado a participar dessas atrações. Para ele, esse é o momento de “divulgar nossa cultura, nossos artesantos e de conhecer novas pessoas que podem ajudar nossa aldeia”. E Idhru já ensinou os ritos tradicionais ao seu filho, Kairon, de quatro anos e que o acompanha em todas as viagens Brasil afora para propagar os costumes dos Kariri-Xocó.

Por último, foi a vez dos Rikitbasa (MS), composto predominantemente por mulheres. “Antigamente, só os homens participavam dos eventos. Mudou faz pouco tempo”, explica Lucinete. Ela ainda conta que a dança celebrada foi a da anta, que é um animal que anda muito, e a do guerreiro. “Somos baixinhos, mas somos bravos”. Antigamente, os seringueiros que tentavam invadir as terras dos Rikitbasa para extrair látex eram mortos e devorados. “É que na nossa cultura não há desperdício. Se matar, tem que comer”, Lucinete fala enquanto carregava  lenha.

A noite já estava quase posta quando os Rikitbasa terminaram de dançar. Eles encerraram as apresentações e foram logo começar a fogueira que iria afastar o frio e esquentar o tambaqui com biju que ganharam dos parentes xinguanos. Enquanto as etnias celebravam suas culturas, o tambaqui ficou assando na brasa para depois ser divido entre todos os presentes.