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Relembre o XVII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

POR REDAÇÃO 14/08/2017

Há 15 dias terminava a 17ª edição do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Nossa celebração começou no dia 15 de julho, com a XI Aldeia Multiétnica, que fortaleceu as lutas e culturas dos povos indígenas até 21, em um novo espaço na cidade de Alto Paraíso de Goiás, a Fazenda Opy, área de preservação ambiental em meio ao Cerrado da Chapada dos Veadeiros, rodeada por serras e agraciada com o rio do Couro e as cachoeiras Almécegas I e II. De 22 a 30, foi a comunidade Kalunga, guardiã do maior território remanescente quilombola do Brasil, junto a comunidades tradicionais e artistas da cultura popular, que assumiram o comando e deram o tom à grande troca de saberes e fazeres que ocorre neste período tradicionalmente na vila de São Jorge.

Ao longo de 15 dias de evento, cerca de 30 rodas de prosa e oficinas aconteceram, abordando importantes temas concernentes aos povos indígenas, remanescentes quilombolas, comunidades tradicionais e às culturas populares, que giraram em torno da preservação ambiental e sociocultural, de questões territoriais e de novas formas de sustentabilidade. O tema do XVII Encontro de Culturas foi “Cerrado das Águas”, que proporcionou o debate sobre a preservação do bioma onde estamos inseridos na Chapada dos Veadeiros, que abriga nascentes de rios que beneficiam oito das 12 grandes bacias hidrográficas do Brasil e está em constante risco devido ao desmatamento causado pela expansão agrícola. A recente ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, cuja área aumentou de 65 mil para 240 mil hectares em maio de 2017, também entrou nas discussões.

A XI Aldeia Multiétnica

Em 2017, a 11ª edição do evento estreou sua nova localização, ganhando a força de representantes de cerca de 200 indígenas, de oito etnias do Brasil: Krahô (TO), Kayapó/Mebengôkré (PA), Fulni-ô (PE), Guarani Mbya (SC), Kariri Xocó (AL), Rikbaktsa (MT), Xavante (MT) e dos povos do Alto Xingu (MT). Importantes lideranças indígenas estiveram presentes, como o Cacique Raoni Metuktire, Paulinho Payakan, Arifira Matipu e Álvaro Tukano, participando de toda a programação e agregando seus saberes às discussões.

Foram sete dias de integração cultural que contou com rodas de conversa de temas diversos, uma feira de troca de sementes crioulas, palestras de convidados ligados às causas indígenas e ambientais, uma mostra de cinema indígena, oficinas, além dos cantos e danças rituais dos povos presentes, que são em si uma aula e tanto sobre a origem do povo brasileiro.

Recebemos a exposição fotográfica “YANOMAMI - Olhares Ocultos”, do repórter cinematográfico André Rodrigo Pacheco; a apresentação da Cia Nu Escuro com o espetáculo “Pitoresca”; a participação de Daiara Tukano, Anápuáka Tupinambá e Denilson Baniwa, representando a Rádio Yandê e a importante rede de comunicadores indígenas do Brasil; a pesquisadora Terezinha Dias, da Embrapa, com a roda de prosa “Diálogos agroecológicos sobre agrobiodiversidade” e um espaço permanente de diálogo com os povos indígenas, atendendo aos presentes sobre conservação e uso da biodiversidade e analisando mostruário de sementes; a palestra “Museu do Cerrado - Uma Ação Inovadora” e a exposição fotográfica “Águas Emendadas”, com a Profª. Dra. Rosângela Corrêa, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília; a apresentação do filme “Demarcação Já”, do diretor André D’Elia; e as participações e presenças ilustres do escritor Cristino Wapichana, da antropóloga Betty Mindlin e do professor Altair Salles Barbosa.

Uma programação que ocupou as madrugadas, manhãs, tardes e noites, do nascer ao pôr-do-sol, sob as estrelas do céu deslumbrante da Chapada dos Veadeiros. Cerca de 5 mil pessoas passaram pela Aldeia Multiétnica nesse período. Um sucesso que abriu as portas para as próximas ações e eventos em prol da causa indígena que serão realizados no espaço nos próximos meses.

A Aldeia Multiétnica é um evento que visa promover trocas e unir os povos indígenas para fortalecimento de suas culturas individuais e lutas em comum, além de proporcionar a aproximação de não-indígenas com alguns destes povos, criando a oportunidade de experiências, contato, sensibilização e aprendizado sobre as culturas e organização social de cada etnia. Reúne povos do Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Amazônia, além de outros países, que apresentam suas culturas de diversas maneiras (cantos, danças, gastronomia, pinturas corporais), compartilham a luta que têm travado para manter sua cultura e territórios tradicionais e debatem com indígenas e não-indígenas as temáticas a respeito da realidade nas aldeias, por meio das rodas de prosa e da convivência diária.

O XVII Encontro de Culturas na vila de São Jorge

A 17ª edição do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros reuniu os principais grupos de cultura popular da região para sete dias de trocas intensas entre artistas, remanescentes quilombolas, rezadeiras, batuqueiros e fazedores de arte do Brasil: a Catira e Folia de São João D’Aliança; a Comunidade do Sítio Histórico Kalunga com diversas apresentações religiosas e culturais; a Congada de Niquelândia; a Caçada da Rainha de Colinas do Sul; e o Congo de Monte Alegre foram alguns dos grupos tradicionais que estiveram conosco. Além dos grupos goianos tivemos também a participação da Secretaria de Cultura da cidade de Paracatu (MG), que apresentou a Caretada, uma dança de origem africana dançada há mais de 200 anos às vésperas do dia de São João Batista na cidade mineira. O grupo de afoxé Alafin Oyó (PE) também se fez presente abrindo a primeira noite do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros e do VI Encontro Quilombola. 

O VI Encontro Quilombola reuniu importantes lideranças de Goiás para celebrar e discutir mecanismos de fortalecimento social, cultural e econômico da comunidade do Sítio Histórico Kalunga. Dentre estas lideranças, Vilmar de Souza Costa, o presidente da Associação Quilombola Kalunga; Dona Procópia; Dona Dainda; a artesã Fiota Kalunga; Cláudia dos Santos, a Tôca, Secretária da Associação de Mulheres Kalungas de Monte Alegre; Seu Adão; Seu Domingos, da Associação de Guias da Comunidade do Sítio Histórico Kalunga;  Maria Helena, a Tuya Kalunga; e Seu Otávio, parceiro da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e um dos articulistas do VI Encontro Quilombola. 

Elizeu Xumxum, presidente do Quilombo Capão Negro, de Várzea Grande (MT) e delegado da Organização das Nações Unidas (ONU) no programa “Brasil a Década Internacional de Afrodescendentes” também participou ouvindo as demandas de seus pares e palestrando sobre a importância da formação de jovens líderes nas comunidades. O Encontro Quilombola foi apoiado pelo Ministério da Cultura, pelo Instituto Federal de Goiás e pela Fundação Cultural Palmares, representada presencialmente pelo assessor Ademilton Ferreira, do Departamento de Proteção ao Patrimônio da Fundação Cultural Palmares. Tivemos ainda a importante explanação de Helga Yamaki sobre o projeto Origens Brasil, do Ima Flora, e as potências deste projeto, se ampliado para a região da Chapada dos Veadeiros;  

Ao todo passaram pela vila de São Jorge 23 grupos musicais e de cultura popular que deixaram a marca de um Brasil pouco conhecido e extremamente rico. Este ano tivemos a participação especial do grupo infantil de sussa e música “Flores e Frutos”, do Sítio Histórico Kalunga, com uma belíssima apresentação no palco; a Turma Que Faz, acompanhada por Doroty Marques também encantou o público com a apresentação da Peña Folclórica e da Opereta “Poeira Cósmica”, esta última fortalecida pelas crianças da vila de São Jorge e apoiada pela comunidade da Vila de São Jorge desde os mais simples aos mais elaborados detalhes;  Doroty também brilhou no palco do Encontro de Culturas ao lado da cantora e musicista Cátia de França, sua amiga de longa data, que foi atração principal da noite de encerramento do evento. João Arruda, Kátya Teixeira, Sabah Moraes, Cabocla Inez Vilela, Ney Couteiro, Victor Batista e Ester Alves também homenageram Doroty no Arreuni; Chico César e  Conrado Pera proporcionaram ao público presente um lindo encontro marcado pela presença dos povos indígenas representados pelos povos do Alto Xingu (MT) e pelo povo Fulni-ô (PE). Passaram pelo palco ainda Alessandra Leão e Caçapa (PE), o grupo Pé de Cerrado (DF), Silvan Galvão (PA) e Mestre Solano (PA), o grupo Passarinhos do Cerrado (GO), o grupo Xaxado Novo (SP), a cantora Raissa Fayet (PR), Emília Monteiro (AP) e o grupo Mawaca (SP). 

A parceria entre Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e o Centro de Estudos Universais, entidade responsável pela realização do Encontro de Culturas do Mundo, em Imbassaí, na Bahia, garantiu a realização da oficina "Técnica Silvestre - A Dança dos Orixás", com a coreógrafa e bailarina Rosangela Silvestre, e os percussionistas e musicistas Renato Pereira e Alysson Bruno. Além da oficina, a participação do grupo Mawaca, que realizou uma série de oficinas e apresentações também foi possível graças a esta parceria. 

Para engradecer ainda mais o Encontro de Culturas, o Circuito Resíduo Arte, idealizado pelo parceiro Christiano Verano, realizou oficinas de reaproveitamento artístico do lixo e de materiais orgânicos do Cerrado, uma feira de artesanato com a exposição de 38 artesãos e apresentações de música, teatro e circo com o Grupo Boca de Lixo e o Bambulengo. Este projeto foi possível graças à Lei Goyazes de Incentivo à Cultura. 

Outra parceria poderosa que vimos florescer este ano foi com o projeto “Janela Aberta das Raízes Goianas”, que antecipou sua estreia para poder participar do XVII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Com o objetivo de enaltecer o conhecimento dos raizeiros de Goiás, o projeto reuniu cerca de 12 mestres da cultura popular goiana, entre raizeiros, benzedeiras e parteiras, que dividiram um pouco de seus entendimentos sobre raízes, folhas e cascas no XVII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. O projeto acontecerá entre setembro de 2017 e fevereiro de 2018, em Alto Paraíso de Goiás (GO) e é uma parceria entre a comunidade e a prefeitura da cidade, com a ajuda do Fundo de Arte e Cultura de Goiás, por meio do edital de Fomento ao Patrimônio Imaterial – Cultura Popular.

O ¿por quá? grupo de dança e o grupo musical Vida Seca trouxe para as ruas da vila de São Jorge uma intervenção urbana e mundana, realizada desde 2012 em Goiânia, que mistura, dança, música e contato com o objetivo de ocupar a cidade com arte-festa;  ainda com dança, as bailarinas Amanda Cristina e Bianca Bazzo realizaram uma oficina de Danças Populares Brasileiras, que permitiu experimentar diversos ritmos populares nordestinos, como o samba de pareia, o cacumbi e o São Gonçalo; a psicóloga Maria Clara também realizou a oficina 5 luas: conexão pela dança, que utilizou uma técnica desenvolvida por ela própria a partir do conceito de 5 ritmos da dançarina Gabrielle Roth, do ciclo chinês de criação; o artista Jhon Bermond realizou a oficina “Pintura Interativa com Tintas Naturais” com pigmentos extraídos organicamente. 

Esta edição do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros também foi um marco na história de aperfeiçoamento do projeto, contando pela primeira vez com intérpretes de libras nas apresentações e palestras. Marcos Lua Negra e Aline Lino de Araújo fizeram a tradução das atividades e também conversaram com as comunidades tradicionais presentes no evento para informá-las sobre o assunto e descobrir se há deficientes auditivos sem acesso à libras nessas regiões.

Foram 15 dias de intenso aprendizado com os povos do Brasil, nos quais mais uma vez tivemos uma demonstração potente sobre a importância e força dos encontros. Nos encontramos mais uma vez em julho, quando estaremos prontos para reforçar a diversidade cultural de nosso povo e celebrar os saberes desses povos. 

Já está com saudades? De 18 a 22 de janeiro realizaremos o II Encontro de Culturas do Mundo - XII Encontro de Músicas e Danças do Mundo, em Imbassaí, na Bahia. Esperamos vocês. Fiquem atentos ao site www.ceuaum.org.br.