Foto: Ana Caroline de Lima | Congo de Monte Alegre no XVII Encontro de Culturas

Congadas: a alegria da fé

POR Marina Almeida 09/08/2017

“Hoje eu tô vindo aqui. Primeira coisa q eu fiz foi pô uns três favos de sucupira na boca pra cantá, porque a gente canta muito. São dez festeiro, mas além dos festeiro tem promesseiro, os devotos que pede pra ir”. 

Promesseiro, explica Valdivino Fernandes Pimentel, é quem recebe a graça de uma promessa. A congada de Niquelândia tem ainda o imperador e a imperatriz, juiz e juíza, príncipe e princesa... 

A apresentação feita no Encontro de Culturas deste sábado também contou com a participação da congada de Monte Alegre. Juntas, as duas congadas desfilaram pelas ruas de São Jorge, rezaram na capela da vila e apresentaram suas danças e cantos tradicionais. Nas duas, a fé dos participantes dava sentido e beleza à festa.

“Eu? Promessa também. Com três anos de idade eu bebi querosene e acabei, acabei, acabei... A gente morava na fazenda, na cidade existia um farmacêutico, era o médico que tinha. Ele falou: leva seu filho pra roça pra enterrar ele lá. Aí minha mãe, com essa fé linda que ela tem... Está aqui, ó, 88 anos. Ela me entregou nas mãos de Santa Ifigênia. Falou: se meu filho sobreviver, vai ser congo enquanto vida ele tiver. Comecei com 9 anos de idade, hoje tô com 56. Um bom período já...”

A mãe de seu Valdivio, que acompanhou os festejos sentadinha numa cadeira cercada de outros filhos e netos, confirma a história.

“Ele morreu e tornou a viver. Eu peguei ele no braço assim, morto, pra mim é morto, não mamava mais... Aí eu pedi a Santa Ifigênia, se ela me desse ele de vorta, enquanto aguentasse dançar era pra dançar. Aí com os poderes de Deus e ela, ele foi melhorando, de tiquinho...”

Dona Cristina Fernandes da Silva conta ainda que até hoje ajuda na festa:

“Todos os anos eu ajudo a arrumar esse congo.  Acho que ela gostou de mim pra isso, né? Eu acompanho enquanto eu tiver viva. Eu gosto muito. Tá muito diferente, antigamente era mais boa a festa, mas tá bom, não pode é parar, né?”

Na frente do cortejo, Isamar Fernandes Pimentel leva uma bandeira ao lado da sua sobrinha, Michele Gonçalves, com outra bandeira. Ela a orienta sobre como segurar e caminha séria, consciente de seu trabalho. Nem os fotógrafos a distraem. Não cansa o braço?

“Não, acho que não, que é muita fé que a gente tem, dá força. Este ano mesmo eu fui princesa e meu filho foi príncipe. A gente anda pela cidade pegando todos os festeiros pelo caminho. Aí vai até a igreja, assiste a missa, faz as dança e vamos até a casa do imperador. Ele dá o almoço, a imperatriz também. A princesa e o príncipe dá a janta. São dois dias, todo ano essa tradição”.

A Congada de Monte Alegre também é colorida, mas em vez dos penachos na cabeça, são fitas de várias cores que caem dos chapéus. Seu Manuel Quirino dos Santos explica como é a festa na cidade:

“Nós veste as roupas de congo, aí nos vai pegar as sussa (as mulheres) num ponto, depois vai apanhar o rei, em outro lugar e depois a rainha em outro. Depois, vai andando, aí já vai de volta pra igreja”. 

E a festa acontece desde que ele se entende por gente. 

“Dos cabeceiras, mais velhos que eu, que aprendi com eles, já não existe mais nenhum. Eu já tô com 72 anos. Um bocado de ano. Até hoje eu entro na brincadeira com fé e devoção em nossa Senhora do Rosário, e peço a ela pra me dar mais anos de vida pra fazer a brincadeira. Enquanto eu guentar a brincadeira, eu tô com ela mesmo.”