Foto: Melito |

Os cantos e encantos de Cátia França

POR Andressa Santa Cruz 03/08/2017

Enquanto Cátia de França se ajeitava no palco, ouviu-se um “LINDA!” no meio da multidão que preenchia a rua da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, em frente ao palco principal. “Ó que eu vou acreditar, visse?!”, ela respondeu, com a voz carregada de sotaque e bom humor. Foi assim, emanando muito alto astral nordestino, que Cátia se apresentou na última noite do XVII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.

Entre uma canção e outra, Cátia aproveitou para ressaltar suas inspirações. “Meu álbum ‘Avatar’ não é por causa dos bichinhos azuis, não. Avatar é um espírito revolucionário que volta à Terra, como Gandhi e Lampião do Cangaço”. Quando não estava provocando a plateia com suas reflexões, a mestra estava fazendo piada e interagindo com o público, que interagia de volta. A cada final de música, mais aplausos. Ou até mesmo durante o som, enquanto Cátia cantava e tocava, as pessoas acompanhavam batendo palmas ritmadas. Todos se contagiaram com a energia de Cátia de França.

Aos 70 anos, ela fez o show sozinha, dividindo o palco apenas com seu violão, seu livro de partituras e seus óculos de grau, por uma hora e meia. Sempre de pé, com a firmeza e a doçura de quem vive do que ama. Mas duas músicas Cátia não quis cantar só e, de repente, duas mulheres de cabelos brancos e cheios reluziram sob os holofotes do Encontro de Culturas. Era Cátia e Doroty Marques, que tocou Cajon, acompanhando o som de sua amiga de tempos atrás. “Nós duas juntas dá 140 anos”, brincou Cátia. Ela e Doroty têm a mesma idade – e o mesmo sorriso de quem soube aproveitar bem a vida. Foi o encontro de duas lendas da música tradicional brasileira.

Assim como Doroty, a experiência musical de Cátia explodiu nos anos 60, quando participou de festivais e viajou à Europa com um grupo de folclore. Mas foi no retorno ao Brasil que a carreira eclodiu. Durante a década de 70, Cátia morou no Rio de Janeiro, onde fez teatro com Elba Ramalho, integrou a banda de Zé Ramalho e gravou seu primeiro disco. E até hoje continua intercalando suas músicas com outros trabalhos artísticos que colaboram com a preservação e divulgação da cultura paraibana.

“Menino, me avisa quando for pra parar aqui, visse?!”, Cátia disse ao microfone, olhando pra quem comandava a cabine de som. Se não fosse pelo toque, Cátia poderia ficar eternamente tocando o público com suas músicas e mensagens. Suas sete décadas bem vividas refletem em sua arte e contaminam quem tem o prazer de testemunhá-la.