De 15 a 30 de julho de 2016
Vila de São Jorge · Chapada dos Veadeiros · Goiás

Vivência

Eu, os Yawalapiti e o início do dia deles na Aldeia Multiétnica

Quarta-feira foi o dia dos Yawalapiti na Aldeia Multiétnica. Ao pernoitar na aldeia observei o início da festa e alguns costumes deste povo que vive no Alto Xingu.

Magali Colonetti
Em 22/07/2015, 17:38


Tamires faz parte da vivência deste ano e está na casa dos Yawalapiti desde o início da Aldeia. Foto: Alan Oju

Cheguei na Aldeia Multiétnica era quase 20h de terça-feira. Peguei uma rede emprestada e fui até a Casa Xinguana, a casa dos Yawalapiti. Eles estavam lá ao redor do fogo comendo uma carne de boi que ganharam. “Essa carne não sustenta, o que sustenta é o peixe”, disseram. O peixe e o biju são os principais alimentos deles, mas o cardápio do dia tinha sido diferente. Fui acompanhada pelo Matheus, um colega da produção que me apresentou ao Cacique Anuiá Amarü e disse que eu dormiria ali aquela noite. Tunuly Yawalapiti foi quem me ajudou a colocar a rede no local indicado pelo Cacique. Depois disso sentei na roda e fiquei observando o que eles falavam. Outras pessoas foram chegando e assim a conversa fluiu. “Vim de Florianópolis, sou jornalista, sou voluntária, é longe, é bonito lá, não como carne, adoro peixe, vocês conhecem Floripa?” foram algumas das frases ditas. Todos falam português, inclusive as mulheres, algo raro se comparado as demais etnias. A todo momento é um rindo do outro, rindo com o outro e rindo dos outros também. Eles já estavam em clima de festa, no meio da madrugada seria a hora deles receberem da etnia Kariri-Xocó a liderança do dia. Na aldeia é assim, cada etnia tem seu dia. A quarta-feira foi dos Yawalapiti.

Era pouco mais de 21h e todos estavam dentro de casa se preparando para dormir. Esse também é um tempo de ficar com a família. No terreiro um grupo da vivência e alguns franceses tocavam música tradicional brasileira. Depois foi a vez dos Fulni-ô cantarem, com suas potentes vozes, desde música do seu povo, a Asa Branca e forró. O fato é que eles seguiram até 23h fazendo um som. Já na casa Xinguana às luzes apagaram pouco depois das 22h, era hora de dormir. Eu não resisti e fui ver o céu lindo da Aldeia. Contei algumas estrelas cadentes, espiei a roda musical e fui dormir. Antes que eu pudesse fechar o olho:

- Ei Magali, já dormiu?
- Não, ainda não Matusalém.
- Você tem lanterna? Fique com ela na mão já. Se precisar ir no banheiro é só sair pela porta aqui (apontando para a porta dos fundos) tá? O banheiro é ali atrás da casa dos Krahô.

Durante a noite as mulheres só podem sair por esta porta. A porta da frente é exclusiva para os homens. Só descobri isso no dia seguinte, então fiz errado (pelo menos uma três vezes). 

Era pouco depois das 2h quando o cântico dos Yawalapiti começou a despertar a Aldeia. Eles cantavam e dançavam o Yakui, a dança da flauta sagrada, a mais importante e sagrada da etnia. Anuiá intuiu do grande espírito que deveria fazer esta dança. Nenhuma mulher pode ver e por isso eles a fizeram bem cedo. Lá no Xingu ela é apenas dançada na casa dos homens e aqui foi dançada por três: o Cacique tocou a flauta e outros dois acompanharam. Depois de um tempo ouvindo a canção levantei da rede e fui até o terreiro. Fiquei meio de ladinho observando e decidi me aproximar ao ver que outras pessoas já estavam ao redor do fogo. É preciso observar e respeitar a sequência das danças. Uma dica: evite sempre, mas sempre mesmo, ficar no meio da roda de dança. Isso é falta de respeito e um tanto perigoso espiritualmente. Se só os homens dançam, não seja bob@ ao se meter lá. Só entre na dança se o convite for feito.

Início da festa
Era três e meia da manhã quando os Krahôs saíram de seu espaço foram dançando até cada etnia para chamar mais gente para a festa. Os Yawalapiti já tinham feito um aquecimento, mas para continuar era preciso que a Cacique Tanuné Kariri-Xóco os passasse o direito de fazer a festa. E assim foi feito. Posicionados na frente da sua casa, os Yawalapiti receberam os Kariri-Xóco que passaram o dia. “Que o grande espírito ilumine nossos caminhos”, foi o que disse Tanuné Kariri-Xocó. Ao receber essa autorização os Yawalapiti foram dançar no meio do terreiro com os Krahô e Fulni-ô. Os que estavam presentes também puderam dançar. Quem entrou na dança foi a Tamires, uma das participantes da vivência deste ano. "Eu só trouxe uma rede e assim que cheguei logo vim pedir para ficar com eles e desde então estou aqui. Até estou toda pintada para a festa", contou. Festa essa que tem um significado ainda mais especial, a comemoração do aniversário do cacique. 

 “Quem vai se apresentar agora? Qual parente? Krahô já surgiu dançando na madrugada. Cantoria não pode faltar”, alertou Cuhkõ Krahô. E assim um pouco dos que estavam ali no meio da Aldeia foram para um novo lugar: o espaço dos Krahô. Lá continuamos na beira da fogueira enquanto a cantoria continuava um pouco ao lado. Eu observava tudo e aproveitava para tomar um café e fumar com quem estava na roda. Café que por sinal não foi coado. No preparo as indígenas adicionam cinzas fazendo com que o pó fique no fundo da panela. Basta colocar a caneca dentro e pegar a quantidade necessária. Ah, notei que o café deles é bem doce. Crianças já estavam despertas e faziam a primeira refeição do dia também. Um dos assuntos que surgiu na roda foi o crescimento da população Krahô depois de uma grande perseguição e mortes de diversos indígenas. Hoje ele estão divididos em 29 aldeias e a população só cresce. Uma vitória e tanto. Mas o ponto mais preocupante é com a saúde. O descaso e a morte de alguns indígenas estão deixando-os em alerta. 

Quase amanhecendo
Voltei ao centro da aldeia, o fogo ainda estava forte e o céu lindamente estrelado. Vi mais algumas estrelas cadentes e uma dança que os Kayapó fizeram na frente da casa deles. Uma garrafa de café começou a rodar por quem estava na roda. Bebida essa que combinou bem com o fogo e o frio que fazia. Não é à toa que estava em todas as rodas. Eu que sou acostumada com o frio não hesitei em ficar o mais próximo da fogueira possível. Sim, estava bem frio. Por ali fiquei em silêncio por um tempo, depois voltei a entrar na casa dos Yawalapiti. Os donos da festa também estavam preparando o café da manhã. Mais uma vez a carne era o alimento. Cheguei e voltei a deitar na rede e logo eles já avisaram que quando amanhece é hora de levantar. Até usaram uma das técnicas que fazem com as crianças, a velha técnica de assustar dizendo que se você não fizer o que dizem algo ruim vai acontecer. Na brincadeira eles usam a questão do gênero como arma. Eu logo entrei na brincadeira, me levantei e fui sentar na roda com eles dizendo não querer virar sapatona. Mais uma vez a conversa rolava solta e um cafezinho quentinho tinha acabado de sair do fogo. Eles coaram o café e colocaram numa garrafa ao meu lado e assim comecei a servir quem estava na roda. Entre um gole e outro, piadas e mais piadas. Senti falta das mulheres ali com a gente. Mas elas, de acordo com a rotina diária, continuavam quietas nas suas redes e cuidando de seus filhos.

O acordar
O dia dos Yawalapiti começa por volta das 4h. Eles acordam e vão logo para a fogueira. Ali tomam um café e ficam contemplando o fogo. “Nossos pais já ensinam desde cedo: é sair da rede e ir para a fogueira. O fogo fala se tem algo positivo ou negativo. Se tiver algo ruim no banho de rio saí tudo. Você sai da água renovado”, contou Tunuly. As mulheres tomaram banho antes dos homens, elas saíram de fininho e foram com seus filhos até o rio que fica na frente da aldeia. Os homens foram logo depois. Assim que voltam para a casa estão prontos para ir para a roça ou fazer os outros trabalhos. Eu fui convidada para ir até o rio. Acompanhei todos, mas avisei que não entraria no rio tão cedo assim. Logo ao chegar no rio levei um pequeno escorregão. “Olha o rio ó, querendo me levar”, falei alto. Logo atrás de mim o Cacique Anuiá Amarü ouvi e me deu aquele puxão de orelha: “Não se recusa um convite desses”. Falei mais uma vez que tomaria banho quando o sol estivesse mais quente e que por agora iria molhar os pés, pulsos e pescoço. Fui para um lugar mais reservado enquanto eles tomavam o banho deles sossegados. E fiz o que prometi. O sol já iluminava a mata e as águas do rio por uma janela no meio das árvores onde ele brilhava. Botei a cara no sol, contemplei o rio, fiz meu rezo e voltei para a aldeia. Eu estava pronta para começar mais um dia e agradecida por essa experiência.