17 de julho a 01 de agosto de 2015

vila de são jorge . alto paraíso de goiás

Turma Que Faz

Jefferson Passos: O conquistador de mundos

Jefferson entende um pouco de tudo e tem sido preparado para futuramente ser um dos curadores do Encontro de Culturas. Juliano, quando pensa no futuro, está descansado. "Isso aqui vai ser do Jefferson e ele vai continuar tudo".
Narelly Batista
Em 24/03/2016, 18:00


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Era dia 29 de agosto de 1996 quando José Pereira Passos, na época com 35 anos, e Silbeny da Silva Rodrigues, 25 anos, viram pela primeira vez Jefferson Pereira Passos, o quarto filho do casal. Jefferson nasceu no hospital de Alto Paraíso de Goiás. Tudo estava preparado para que o menino nascesse em Formosa, onde a mãe fez todo o pré-natal, mas como moravam na roça e o trajeto era difícil, precisaram parar em Alto Paraíso para esperar a chegada do caçula.

O amor de Silbeny e José  floresceu na roça, às margens do rio São Miguel, na entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, próximo à vila de São Jorge, distrito de Alto Paraíso de Goiás. Ali constituíram uma família grande e unida, com quatro filhos extremamente ligados a ela e que aproveitaram de toda a liberdade oferecida pelo cerrado. Quando Jefferson completou dois meses de vida, o casal decidiu que se mudaria para São Jorge, na época com pouco menos de 200 habitantes.

José passou a trabalhar de guia turístico e Silbeny auxiliava os empreendimentos da vila em alta temporada, trabalhando na área de serviços gerais. Jefferson, ou Geba, como toda a vila passou a chamá-lo, cresceu no vilarejo, onde em todo dia 29 de agosto passou a comemorar o aniversário com parentes e os amigos que foi fazendo ao longo dos anos. Em uma vila de pouco mais de 200 habitantes, aniversariar é celebrar a vida e todos os desafios enfrentados – ora a distância com a cidade, ora a queda no fluxo de turistas e,consequentemente, na geração de renda local.

Como todos os meninos e meninas que moravam ali, sua única grande distração era o futebol. O campinho improvisado e a quadra eram mais importantes do que a praça da vila. O encontro das crianças e dos jovens era ali. Certo dia, uma forasteira de cabelos brancos e voz rouca os chamou atenção. "Meninada, cês fazem o quê para se divertir aqui?", questionou ela.

"Ué, jogamos bola", responderam.

"E cantar, dançar, pintar, esculpir?", indagou.

As crianças a olharam assustadas, como se isso nem fosse algo divertido, e voltaram a correr. Dias depois, descobriram que o nome daquela mulher era Doroty Marques. Era também ela que eles viam no palco no mês de julho, durante o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, se apresentando ao lado do irmão, Dércio Marques.  Jefferson começou a se envolver com a Turma Que Faz quando tinha nove anos de idade. Lá aprendeu a cantar, tocar, esculpir e a falar com a comunidade. O garoto antes tímido mudou sua postura frente ao mundo após entender o significado de arte-educação.

Ele já quis ser prefeito, professor e advogado, mas hoje acredita que é na pesquisa de cultura popular que poderia contribuir com o mundo. Procurando melhores condições de vida, saiu de São Jorge e foi morar em Anápolis por seis meses. Em uma fábrica de salgadinhos, onde trabalhou nesse tempo, verificou que vida boa era mesmo entre os seus na pequena vila, que agora já possui cerca de 600 habitantes e que lhe fazia uma falta imensa.

Voltou para São Jorge e começou a trabalhar no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. O trabalho, que seria provisório, transformou-se em um cargo efetivo na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge.  "Sou o braço direito da Tila aqui", explica.

Jefferson entende um pouco de tudo e tem sido preparado para futuramente ser um dos curadores do Encontro de Culturas. Juliano, quando pensa no futuro, está descansado. "Isso aqui vai ser do Jefferson e ele vai continuar tudo". Ao perguntar a Jefferson se ele pensa em ir embora, um sorriso largo acompanha a resposta: "Acho que lá fora não tem nada mais importante do que o que eu posso fazer por essa vila".

Jefferson hoje tem 19 anos e é um dos integrantes da Turma Que Faz. Acredita em transformação social por meio do conhecimento popular e cuidado ambiental, não quer sair do campo e me explicou que "a África é o berço da humanidade". Sabe que seu povo não é escravo, mas que veio de um reino colorido, onde os reis eram negros e livres. É hoje um dos três embaixadores do estado de Goiás no projeto Mapa da Educação, adora Zé Mulato e Cassiano, samba, pagode, rap e futebol. Sabe que é responsável por dar continuidade ao trabalho que Juliano Basso, Tila Avelino e Doroty Marques tem desenvolvido. É devoto de São Jorge e inspira-se em Juliano e Seu Júlio como homens de fé. Seu maior dragão é o tempo, que, às vezes, é curto demais para conhecer e absorver cada uma das pessoas que vê passar pela vila com costumes e culturas tão diferentes.

Almeja no futuro fazer uma graduação. Mas, neste momento, já é um mestre da cultura popular que sabe muito bem o que significa o cuidado com o campo, com a arte e com o outro. 

 

A Vila de São Jorge




Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros é um projeto da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge.
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