17 de julho a 01 de agosto de 2015

vila de são jorge . alto paraíso de goiás

Cultura e Infância

Garimpeira de sonhos

Das favelas do sudeste às periferias e matas do norte, o contato de Doroty com as crianças e adolescentes era sempre revelador. Intenso, trabalhoso, musicado e revolucionário.
Narelly Batista
Em 20/07/2015, 20:42


. Foto: Alan Oju

Aqueles cabelos longos e brancos foram vistos em São Jorge pela primeira vez em 2003, quando Doroty chegou com seu irmão, Dércio Marques, para apresentar-se no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. A alma livre daquela que é conhecida por sua voz rouca, de pronto se encantou com aquele pedacinho de chão no meio do cerrado goiano. 

Assim como Doroty, a vila de São Jorge tinha sonhos grandes para seus pequenos. As crianças que viu na vila, a inquietaram. Como foi em todos os lugares pelos quais passou. Das favelas do sudeste às periferias e matas do norte, seu contato com as crianças e adolescentes era sempre revelador. Para as crianças e para si. Intenso, trabalhoso, musicado, revolucionário. 

Questionou os motivos de aquelas crianças que via na rua não terem nenhum tipo de atividade extracurricular ou programa educativo. Naquele dia, São Jorge viu nascer uma parceria valiosa entre Doroty e a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. Doroty tomou para si a responsabilidade de lutar pelas crianças da região e em contrapartida, a comunidade se mostrou confiante naquele modelo educacional tão diferente e especial. Plantaram um modelo de educação libertador e consciente, hoje colhem uma comunidade mais forte e tolerante.

Como arte-educadora, reverenciada pelo país, montou o projeto Turma Que Faz, uma escola de artes no terreno da associação dos garimpeiros de São Jorge e desde então distribui broncas e sorrisos aos seus alunos. O programa atendeu centenas de crianças. Dos nove anos que o programa existiu, seis deles tiveram apoio da Petrobrás. Hoje, uma extensão do projeto foi criada, o Todos Nós. Agora, oferecendo qualificação para a produção cultural em que tanto eles se viram inseridos na infância. 

Para bater um papo com Doroty, precisei interrompê-la. Ela estava atarefada demais para me dar atenção, mas topou responder minhas perguntas se eu não demorasse e a ajudasse espalhar pela Vila o primeiro espetáculo do Todos Nós, a “Penha”. O espetáculo é uma imersão nas idéias de educação libertadora de Violeta Parra e o primeiro espetáculo produzido completamente pelas crianças pensando na geração de renda e na sustentabilidade de sua arte. 

Cheia de determinação, gargalha com sarcasmo quando discorda de alguma coisa. 
“Eles querem é exterminar a juventude pobre”, pontua, após uma gargalhada de indignação quando pergunto sobre a posição dela diante da proposta da redução da maioridade penal. 

Doroty sabe do que diz. Trabalhou com arte-educação nas favelas mais violentas do país. Sua maior angústia hoje é reconhecer que naquele período seu trabalho não surtiu os efeitos que esperava. 

“O menino da favela é condenado pelo endereço”, lamentou. Não quis muito falar a respeito. Ficava visivelmente irritada quando lembrava da forma com que “seus meninos” eram tratados pela sociedade. 

Se alegrou quando falou sobre a "Turma", como ela chama o grupo de crianças que participa de seus projetos. “Não é porque são meus alunos, mas são bons, viu?! Talentosos!"


Doroty é como um dos garimpeiros, não mais tão presentes na história da Vila. Doroty procura pedras preciosas. Essas que estão aqui, ali e acolá, e são chamadas pelo mundo de "curumin" "niño", "children", "criança".

 

A Vila de São Jorge




Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros é um projeto da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge.
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