Literatura

Daniel Munduruku: "Indígena sim, índio não"

Afinal de contas: o que é ser índio? O que a palavra significa? Ela ainda é válida para os dias atuais?
Magali Colonetti
Em 17/07/2015, 23:39


Daniel Munduruku é um dos mais respeitados escritores da literatura indígena no Brasil. . Foto: Alan Oju

Foi com uma saudação a todos em Munduruku que o indígena Daniel Munduruku iniciou a primeira prosa da Tenda Literária Indígena, uma novidade da Aldeia Multiétnica deste ano. Traduzindo para o português suas palavras foram: “Que esse encontro seja tão bom para vocês como vai ser para mim”. Excepcionalmente a conversa aconteceu na Casa de Cultura Cavaleiros de Jorge nesta sexta-feira, dia 17, e o tema foi: Índio ou Indígena? Quem somos e por que estamos. 

Também nas primeiras palavras ele fez a afirmação que norteou a conversa da noite: “Eu não sou índio. Não existem índios no Brasil. Quando afirmo isso às pessoas, elas arregalam os olhos porque vai ao contrário do que aprenderam. Todos aprenderam estereótipos e há 500 anos estamos repetindo eles”, explicou. Daniel defende que a imagem do índio atual é daquele do século XVI chegando ao ponto de alguns acharem que os indígenas são selvagens. Outros já acham que são um estorvo para o Brasil e devem ficar lá nas reservas quietinhos. Sim, ainda existem 55 grupos que não fizeram contato com não indígenas e neste caso, segundo o escritor, “o estado tem o dever de protegê-los e de deixá-los lá no cantinho deles o máximo possível”. Mas os demais povos tem contato com os não indígenas e precisam se adaptar a isso. “Quando falamos em cultura temos que pensar em movimento. Cultura parada está no museu. Então é muito difícil entender que o indígena que vive nesse tempo não pode ter acessos a tecnologias. Justamente é o contrário, se não se atualizar morre”, observou. E ele ainda disse mais: “O índio faz muito esforço para entender o Brasil. O Brasil faz pouco esforço para entender os índios”. 

Índio é um apelido, e nem todos os apelidos são legais
Segundo Daniel, quando um indígena é chamado de índio ele entra num grupo de pessoas iguais entre si. Uma forma de apagar a identidade de cada um. Uma palavra que acaba diminuindo o indígena. “Eu sou um indígena Munduruku, esse é meu povo com três mil anos de história. É um povo completo e que resolve suas necessidades de maneira própria. São 300 anos de contato com a sociedade brasileira e que acabou se adaptando a isso. O povo Munduruku lutou muito para manter sua essência e conseguiu. Somos 15 mil no Pará, três mil em Amazonas e 3mil no Mato Grosso do Sul. Temos nossa língua, nossas danças e nossa espiritualidade. Cada povo é diferente nisso, e por isso não se pode dizer que índio é tudo igual”. 
Jeito de ser Munduruku
Durante a conversa de quase duas horas, Daniel também falou muito de seu povo. Um dos grandes ensinamentos é como eles contam o tempo. Para eles não existe o futuro, apenas o presente. Vive-se o hoje como se fosse o último dia. “Nós dividimos o tempo em fases. As crianças são crianças até os nove anos. Até lá elas vão viver totalmente esta fase. Depois esquecem e vivem a próxima. Assim serão adultos equilibrados”, contou. Falando sobre o tempo, o casamento acontece muito cedo e não porque eles querem ser pai ou mãe. O objetivo mesmo é ser avô. “O Avô é quem educa o espírito da criança, os pais educam o corpo. O melhor mesmo é ser bisavô, tataravô, mas se aos 80 anos um homem ser tetravô aí sim ele é considerado um sábio”. Daniel ainda comentou sobre o ritual que os meninos vivem aos 15 anos, quando vão para a mata sozinhos passar por algumas provações. Eles precisam sobreviver e voltar para casa com uma grande caça. “As mães choram muito nessa hora e por dois motivos. O primeiro: os filhos podem morrer. O segundo: se sobreviverem já não serão mais crianças e outras mulheres é que os abraçarão. O silêncio também um dos grandes aprendizados do povo. O silêncio para andar pela mata sem ser percebido, para ser um bom caçador e para silenciar os próprios pensamentos. 

Autor de 47 livros
Daniel é um dos principais nomes da literatura indígena no Brasil e mundo. Já escreveu pra todo tipo de público, mas é para as crianças e jovens que ele mais comunica na esperança de construir um mundo melhor. Inclusive descobriu a literatura como arma para reduzir a distância entre o indígena e não indígena durante uma aula que ministrava à uma turma do ensino médio. Filósofo de formação, ele chegou a conclusão que mitos são mitos e por isso eles podem ser substituídos. E assim ele fez: mitos indígenas substituíram os mitos gregos em sua aula. “Uma criança me perguntou: tio índio, onde eu encontro essas histórias para eu ler? E assim caiu minha ficha”, contou. Ele diz ter recebido de seu avô a herança de ser um portador da palavra falada e começou a palavrear de forma escrita em 1996 com o livro Histórias de Índio. “A academia não considera a literatura indígena como literatura. Mas aos poucos vamos conquistando nosso espaço. Muitas pessoas estão estudando a literatura e isso ajuda na quebra de estereótipos e barreiras. E assim os 30 autores indígenas vão conquistando mais espaço. No momento, Daniel divulga seu mais novo livro intitulado Das Coisas que Aprendi.

 

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