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28/07/2011 | Vivência

Unindo os dois lados do oceano através da música

Encontro entre quilombolas e grupo africano revela a grande semelhaça entre as religiões, ritmos e danças de dois países unidos pela origem negra

por Vitor Santana


Brasil e Benin se unem na daça Foto: Anne Vilela

A aproximação entre as várias manifestações culturais é um dos principais objetivos do Encontro de Culturas Tradicionais. A cada ano, mais culturas se reúnem em São Jorge para conviverem e trocarem experiências. Em 2011, essa aproximação cultural uniu dois continentes: África e América do Sul.

Em uma vivência entre os representantes da Comunidade Quilombola de Santa Rosa dos Pretos (MA) e o grupo Towara, do Benin os participantes puderam apreciar um pouco da cultura de cada grupo através das danças, cantos e batuques. Os primeiros a se apresentarem foram os maranhenses, com seus tambores de crioula e de minas. Os africanos e demais visitantes que também acompanhavam atentamente a apresentação, aos poucos, foram interagindo e entrando na dança, aumentando cada vez mais a roda.

Na sequência foi a vez dos africanos do grupo Towara se apresentarem. As tradições trazidas pelos representantes de Benin geravam muita curiosidade, despertando a atenção dos quilombolas e demais participantes. Assim como o grupo brasileiro, as dançarinas africanas convidaram a todos para aprender os passos de sua cultura.

Para estreitar os laços entre Brasil e  África uma conversa entre o grupo evidenciou as semelhanças e diferenças entre as manifestações. Assuntos como ritmo, religião e semelhança entre os povos foram as principais pautas, todas acompanhadas atentamente. As semelhanças descobertas durante o bate-papo encantaram os dois grupos, o que ficou claro nas trocas de olhares, acenos de cabeça e comentários entre os participantes.

Conversa entre quilombolas e africanos na Cavaleiro de Jorge. Foto: Anne Vilela

Em uma breve conversa com a Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge, representantes dos dois grupos deixaram suas impressões sobre a vivência:

Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge: De maneira breve, como é a comunidade de vocês?

Anacleta Pires da Silva (Quilombo de Santa Rosa dos Pretos): Hoje, nós do Maranhão, já temos o reconhecimento da nossa comunidade, um nome específico das nossas áreas, que chama-se Comunidade Quilombola. Isso foi através da luta dos movimentos sociais  e pelo reconhecimento memorial que se encontra nas pessoas mais velhas nos nossos quilombos.

Marcel Zounon (Towara):
  Meu grupo se chama Towara e venho do Benin, um pequeno país da África Ocidental. O Benin é um dos países mais democráticos de toda a África. A nossa cultura é baseada no vodun e no orixá. O trabalho que desenvolvemos é um trabalho de pesquisa do panteão vodun para destacar as danças e as músicas dos conventos e das savanas tropicais. Nós viemos ao Brasil para fazer um intercâmbio com nossos parentes que estão aqui. Para nós, o Brasil é como nosso continente, nosso país, porque nossos pais estão aqui e nós estamos cientes disso.

ANCJ: O que vocês acharam desse encontro do Brasil com a África?

Marcel: É muito enriquecedor porque as culturas se juntam e se parecem também. E o povo brasileiro que nós encontramos é um povo muito entusiasta, solidário, cooperativo e muito sociavel. Eu me vejo no meu país.

Anacleta: Para nós que estamos aqui no Brasil, ele é muito enriquecedor e muito fortalecedor da nossa própria identidade. Nós também tivemos a oportunidade de visitar um pouco da África, indo pra Guiné Bissal e Cabo Verde. Para o quilombo é muito forte essa forma de repasse oral da cultura. A gente tem aqui no Brasil o nome de afro-brasileiros,  então é uma mistura dos africanos com alguns costumes do Brasil, aonde ainda está muito viva a questão do sangue afro, porque no quilombo é uma só família. E isso nos fortalecesse muito quando a gente se vê nessa mesma pele. Mesmo o Brasil tendo uma grande influência europeia, nosso quilombo é muito puro. Então, isso pra nós, é um fortalecimento da nossa identidade aqui no Brasil.

Integrante do grupo Towara ensinando alguns passos da música africana. Foto: Anne Vilela


ANCJ: Quais as semelhanças e diferenças entre as culturas de vocês?

Marcel:  As semelhanças são numerosas. Por exemplo a questão dos instrumentos, eles são muito parecidos e a forma de dançar também, porque eles tem essa forma de dançar com o joelho dobrado, assim como nós, e o ritmo dos tambores vai  acelerando e ficando cada vez mais intenso, e isso é igualzinho à nossa cultura. Quanto as diferenças, tem a língua, que é um problema bem grande, porque quando você olha agora, um fala inglês, um fala francês, um fala alemão, mas essa é a única diferença entre nós.

Anacleta: Uma questão muito forte é a da língua. No quilombo, não falamos a verdadeira língua portuguesa, nós temos coisas que a gente não consegue, nós temos umas considerações na fala formal, porque no nosso quilombo a gente fala a língua informal, aí quando a gente sai pra um encontro assim é que a gente tenta ao máximo falar a língua portuguesa correta, porque nós ainda temos uma grande parte de fala da África. Inclusive, nós temos uma reza em latim.Como ele disse, a diferença é muito pouca, mas quanto a bater os instrumentos, ainda está a memória viva traga de lá. Os nossos cânticos, assim como eles, são ritmados. Tudo que a gente fala tem uma letra da música,  e na letra a gente têm os versos, com os versos a gente está usando um meio de comunicação para com as pessoas, que as vezes as pessoas nem sabem o que a gente está falando, por questão de ainda manter essa língua dos nossos antepassados. África pra nós é pele, é sangue, é alma.

ANCJ: É difícil preservar a tradição do seu povo?

Marcel: Não, de maneira alguma. A tradição está muito viva e muito forte, então ela se transmite muito facilmente de geração em geração, toda a tradição vodun, orixá, as tradições dos rituais, do crescimento até o casamento, até o enterro, tudo é preservado de geração a geração, apesar dessas novas religiões que surgiram ao longo do tempo pra tentar dividir tudo isso. Apesar disso, a cultura continua muito viva e sendo transmitida.

Anacleta: Eu sou de um quilombo que ele, mesmo com todo o sofrimento, nunca deixou no esquecimento as culturas tradicionais como o tambor de crioula e o tambor de mina. Com toda aquela dificuldade que aconteceu com nossos antepassados aqui no Brasil, a Santa Rosa dos Pretos é um dos quilombos maranhenses que mantém todas suas tradições vivas. E existe uma preocupação porque nós temos muitos quilombos que hoje não têm em prática as suas culturas, as suas religiões, só tem na teoria. É uma dificuldade manter as tradições, até mesmo por questões financeiras, porque o pensamento da gente, como está vivo na memória das pessoas, é fácil de resgatar, mas a comunidade tem dificuldade de se deslocar a um outro quilombo para conhecer, manter viva as culturas. Mas a gente tem em mente que será possível dar continuidade a esse trabalho, principalmente depois da nossa visita à África.


Zabé da Loca, 2007. Foto: Marcelo Scaranari

#ENCONTRODECULTURAS



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Fotos e matérias podem ser distribuídas desde que citados os créditos da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge e do fotógrafo.