Kalungas - 26/07/2009

A tradição secular de descendentes dos escravos

Comunidade Kalunga traz uma mostra da Folia do Divino e do Império para o Encontro

por Gabriela Marques

Foto: Vivian Scaggiante

Império Kalunga

Fim da Aldeia Multiétnica, início da programação do Encontro de Culturas Tradicionais em São Jorge. Na sexta-feira, cerca de oitenta pessoas chegam à Vila para representar a comunidade Kalunga, das cidades de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás. Homens, mulheres e jovens vão mostrar um pouco da Folia do Divino Espírito Santo e do Império Kalunga, festas típicas da região, cujo nome significa "lugar sagrado, de proteção".

 No sábado pela tarde, cerca de dez mulheres se reúnem para fazer a decoração da festa, das varas usadas no Império, das coroas do Imperador e dos anjos, além da bandeira do Divino Espírito Santo. Cola, barbante, tesoura e muita criatividade são os ingredientes para transformar papéis crepom de todas as cores em flores e enfeites. Reunidas ali, elas aproveitam para colocar a conversa em dia. Um pouco de refrigerante ajuda a aliviar o calor e um gole de pinga para "molhar a palavra".

Entre uma bandeirola e uma flor, uma pausa para receber quem chega. A maioria procurando por Dona Natalina. Alguns querem uma entrevista, saber um pouco mais da cultura desse povo. Outros só querem mesmo estar perto e ouvir as histórias de Dona Dainda, como é chamada por muitos.


Dona Dainda: "Quando os homens não querem ajudar, a gente briga e eles vem". Foto de Vivian Scaggiante

Com um olhar desconfiado e um sorriso sincero, essa senhora simpática é dona de um temperamento forte e uma grande sabedoria. "Esta flor está boa desse jeito?". "Está sim, pode continuar fazendo", responde ela com toda sua experiência. Mas nem sempre as companheiras aceitam a ajuda dela. "Quando eu vou ensinar e dizem que sou a mais sabida, deixo virar a bagaceira", conta enquanto enrola um fumo.

Na festa original, que tem duração de dez dias, é necessária a presença de trinta mulheres que levam um dia inteiro para preparar tudo. "Só as mulheres fazem os enfeites?", pergunto. "Não, os homens também ajudam. Quando eles não querem a gente briga e eles vêm", se diverte Dona Natalina. Na região dos Kalunga, eles aproveitam a presença do padre na festa para fazer casamentos e batizados, que às vezes chegam ao número de duzentos.

A origem da festa ninguém sabe ao certo. "Eu acho que foi quando começou o mundo", diz uma. "Não tem como saber, mas eu acho que foi quando acabou a escravidão. Os escravos que ficaram fizeram a romaria", explica Dona Natalina, que desde pequena se lembra de participar da organização da festa, antes feita só com as bebidas, comidas e serenatas dos festeiros. O Império surgiu depois, quando um senhor que morava em Cavalcante viu a manifestação em outra cidade e levou para a região dos Kalunga.

A fé dos antepassados é mantida e repassada para os mais novos. Mas nem todos fazem questão de manter a tradição. "Hoje os novos não querem saber de girar folia, dançar. Só querem saber de dançar forró", reclama Dona Natalina que se esforça para manter a esperança e a devoção de seu povo.

A noite vai chegando e ainda falta enrolar as quatro varas que serão usadas no dia seguinte. Feitas de um fino bambuelas simbolizam os santos, são a proteção do Imperador e dos anjos. "Não pode passar por cima da vara, tem que passar por baixo". "Por quê?", pergunto. "Por respeito, ninguém pode passar por cima dos santos". Na hora de guardar a vara, a ponta sempre deve ficar virada para cima. Já a sobra de papel crepom é picada e guardada, ela será usada na festa.

  Levantamento do mastro 

À noite, é hora da missa das oito, quando será erguido o mastro com a bandeira do Divino Espírito Santo. Um cortejo sai em direção à igreja ao som da sanfona, da caixa, da viola e do pandeiro. Os fogos de artifício anunciam o início da caminhada e avisa a todos que a reza vai começar. As velas são para iluminar o caminho. "É que quando surgiu essa festa não existia luz assim como é hoje", explica Dona Natalina.

Ao entrar na igreja da Vila de São Jorge, um por um caminha até o altar e pede a bênção aos santos. Sentados nos poucos bancos, em pé próximo à porta ou do lado de fora olhando pela janela, todos se ajeitam neste local tão pequeno e tão cheio de fé. A ladainha e as rezas têm início puxadas pelas rezadeiras que, de um jeito ritmado, cantam as palavras de devoção. "Perdão Deus divino / Perdão Deus de amor / Perdão Deus clemente / Perdoa o senhor".

Depois de rezar, todos vão para fora da igreja, onde os instrumentos voltam a ser tocados enquanto os devotos caminham cantando em volta da casa de Deus. Uma fogueira é acesa e a bandeira é presa no mastro, que é levantado. "A fogueira é feita com as varas usadas na festa do ano anterior. Ela mostra nossa raiz, de uma época que não tinha luz". Já o mastro simboliza o início da festa e é uma forma de mostrar a honra dos devotos em rezar. Todo esse serviço é feito pelos homens.

O cortejo volta a caminhar pela cidade, agora em direção à Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, onde será a festa no dia seguinte e onde serão deixadas as varas. A música anima o caminho que é feito com todos andando na mesma direção. "Ninguém pode voltar enquanto um grupo caminha para frente porque se cruzar o santo castiga". E nem adianta perguntar o motivo, a tradição é mantida pelo temor dos devotos.

  Show 

Da Cavaleiro de Jorge todos seguem para o palco, onde serão apresentadas duas danças típicas dos Kalunga, a Sussa e a Curraleira. Em cima do palco os homens tocam e cantam. Algumas das mulheres se ajeitam no chão para tocar a buraca, instrumento feito com couro de vaca. As outras mulheres do grupo se preparam para apresentar a dança.


Sussa dos Kalunga. Foto de Vivian Scaggiante

O palco é pequeno para todos e quem está do lado de baixo não consegue ver como se dança a Sussa. Rapidamente, elas descem e no meio da plateia rodam suas saias batendo o pé no chão. Quem assiste não resiste ao ritmo e logo consegue um lugar ao lado de uma delas para aprender, a festa está formada. "Arriba a saia mulher / Não deixa a saia molhar / A saia custou dinheiro / Dinheiro custa ganhar".

Depois da Sussa, é a vez da Curraleira, brincadeira em que os homens se dispõem em duas filas, uma de frente a outra, e dançam trocando suas posições e sapateando. A apresentação dura quase uma hora e o público presente aproveita cada minuto. "Eu já conhecia a dança, é ótima, muito envolvente", diz Josiane Ribeiro, de Brasília.

Império Kalunga 

No domingo, um pouco antes do almoço, é hora de arrumar os últimos detalhes do Império. Usar os enfeites feitos no dia anterior, preparar os biscoitos e bolos e arrumar a mesa com as garrafas de refrigerante, pinga e vinho, tudo muito bem decorado.

Às três horas da tarde, todos se reúnem na Casa de Cultura. Animados pela música que não para, Dona Natalina prepara o Imperador, que é coroado, e os anjos, um menino e uma menina. Denilson Pereira, de 24 anos, cumpre a principal função da festa pela primeira vez. Sua mãe orgulhosa faz questão de tirar foto e não sai de perto dele durante o cortejo.

Tudo pronto. É hora de seguir para a igreja. Ao sair da Casa de Cultura, quatro homens seguram as varas que, formando um quadrado, "protegem" o Imperador e sua família, os anjos, as rezadeiras e os organizadores da festa. Antes, o alferes, coordenador da folia, faz a bênção com a bandeira do Divino Espírito Santo. Depois dele, é a vez do faconista dar a bênção com um facão que simboliza uma espada e dá a proteção ao Imperador.

Os fogos de artifício voltam a estourar no céu anunciando o início do cortejo. Todos caminham pelas ruas de São Jorge enquanto os homens tocam. Na entrada da igreja, o alferes e o faconista dão a bênção mais uma vez para que todos entrem dando início à reza. As rezadeiras mais uma vez assumem sua função e puxam as ladainhas. Na saída, um por um se levanta e caminha em direção ao altar para pedir a bênção dos santos.

De volta à Casa de Cultura é hora da festa. O papel picado no dia anterior é jogado na cabeça de cada um que entra para abençoar quem participa da festa. Mulheres e homens ocupam o salão e no centro, casais se formam para dançar a "puladinha". O Imperador e os anjos assistem a tudo atrás da mesa decorada.

A combinação de comida, bebida, música e muita animação faz com que a festa siga sem ter hora para acabar. Quem nunca foi à região dos Kalunga pôde conhecer um pouco da alegria desse povo que carrega em sua história a tradição de escravos fugidos.

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Comentários nesta matéria:

Gabriel disse em 18/09/12 | 05:53
nao tem nada do que eu presiso


anonimo disse em 17/05/12 | 05:18
nao tem nada do que eu quero orrivel;







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