Brasil caboclo - 29/07/2010

Viola intuitiva desvendando o caboclo brasileiro

Noel Andrade emociona o público cantando os mistérios dos camponeses do Centro-Sul

por Giovanna Beltrão

Foto: Fredox

Noel Andrade no X Encontro de Culturas Tradicionais

O violeiro Noel Andrade foi responsável por uma apresentação diversificada na noite de terça-feira, 27, no X Encontro de Culturas. Acompanhado pelo violonista Rodrigo Hid e pelo percussionista Ju Vieira, o músico convidou o público para conhecer um pouco da simplicidade do caboclo brasileiro. Sempre com a viola em punho, Noel mostrou algumas canções de autoria própria e outras de músicos que admira e lhe inspiram em suas composições. Ao final do show, contou ainda com a participação do músico Dércio Marques.

Pesquisador da música camponesa, a diversificação das apresentações de Noel pode ser observada na sutileza com a qual o violeiro revela as peculiaridades do caboclo de cada região. Com 11 anos de carreira, Noel Andrade se prepara para lançar o primeiro álbum. Em entrevista à Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge, o músico falou sobre a sua iniciação no universo da viola, o álbum Charrua e o projeto Turma Que Faz, com quem se apresenta amanhã, juntamente com Dércio e Doroty Marques.

Como foi o início do seu percurso como violeiro?

O Roberto Corrêa fala que violeiro é igual anjo, você nasce violeiro. Você não escolhe, você nasce. A verdade é que a escola começou a não dar certo, eu comecei a não querer mais, já tocava um pouco de viola e comecei a pesquisar, a procurar violeiros para tocar junto. Quando eu comecei não existia método, tinha uma cartilha do Roberto Corrêa na praça, mas era uma coisa complicada, tinha que ter uma formação erudita para ler o que estava escrito no pentagrama, e na época eu não sabia ler música. Conheci um violeiro chamado Gedeão da Viola, que me passou os primeiros fundamentos de viola caipira, que é aquela coisa do Tião Carreiro, dos pagodes de viola. Depois eu fui pra Belo Horizonte fazer faculdade de música, comecei a estudar violão, mas não deu muito certo também. Nessa época eu conheci o grupo folclórico Aruanda, eles recordam o folclore e criam uma coreografia em cima daquilo com as canções nativas. Ali eu tive contato com ritmos de todo o Brasil, logo fui para São Paulo trabalhar, conheci a Doroty e já estou por perto há 11 anos.

Entre os ritmos que você conheceu dentro do grupo Aruanda, existe algum que te chamou mais a atenção? Qual?

Eu sou brasileiro, eu fico encantado pela diversidade da coisa. Eu não sou especialista em nada, eu toco a minha viola por intuição e gosto dela, não consigo ficar sem tocar um instrumento e tudo o que vou conhecendo coloco na bagagem. Mas eu lembro que eu gostava muito das folias, eu ficava encantado com os tambores batendo. Depois eu fui trabalhar com a Doroty que é mestre nisso, ela toca o tambor como ninguém toca, ela tem toques que ela pegou no campo e trouxe para dentro da vivência dela.

Você tem pesquisas musicais dentro da música caipira. O que você tem observado nessas pesquisas?

Eu pesquiso dentro da música essa coisa da alma do caboclo brasileiro. Não é só o cara que está na roça, é o caiçara, o gaúcho. Através da música eu acho que eu descubro aspectos humanos, os usos, os costumes, a comida, a vestimenta. Eu vi por aqui um pessoal calçado com umas sandálias que vieram do Acre, que os seringueiros fazem; eu fico atento a todas essas coisas, a esses detalhes.

Além do que você já falou, o que mais te chama atenção no universo caboclo, que você usa como inspiração nas suas músicas?

O que encanta é a sustentabilidade da coisa, isso vai se estendendo no canto, no tocar, eles não têm dependência de energia, de tecnologia, de bons instrumentos, eles usam a mesma espontaneidade que um passarinho tem quando abre o bico e canta. O camponês tem essa pureza de alma que lhe permite lidar com essa falta de tecnologia. Ele não tem acesso a essas novas formas de plantio, transgenia, etc.. Ele tem a semente dele, ele constrói os seus instrumentos e aprende a tocar sozinho. O Renato Teixeira tem uma frase em uma música dele que eu acho que resume muita coisa é "o simples resolve tudo", e resolve.

Você está finalizando o seu primeiro disco, e nele vai ter uma música inédita do Renato Teixeira. Como foi isso?

Eu estou terminando o álbum, acho que daqui um mês, no máximo dois, ele fica pronto. Eu sou muito amigo do Chico Teixeira, que é o filho dele , foi ele que me apresentou e me aproximou do Renato. Ele me deu uma música para colocar no disco, chamada "Força de um Leão", é uma música maravilhosa que ele compôs na década de 80 e nunca gravou, ele tem muita coisa, uma obra vasta. É um compositor genial, talentoso, um senhor compositor, eu tenho um respeito enorme por ele.

Você define a sua música de alguma forma?

Muitas vezes a gente precisa de rótulos, mas nós estamos falando de música camponesa brasileira, de origem indígena, africana, europeia, que é a nossa raiz. Mas, tem uma música no meu disco que tem a harpa paraguaia, por exemplo. É uma regravação da Rosinha de Valença, chamada Usina de Prata. Então, acaba não tendo uma definição muito clara.

O nome do seu disco é Charrua. Existe algum motivo para a escolha desse nome?

Charrua é uma embarcação primitiva, é uma etnia. Mas eu tive essa ideia porque a charrua que eu conheço é uma trança de couro que, no acabamento, as pontas ficam escondidas. Eu pensei nesse mistério das tranças sem pontas pelo fato de o disco ter músicas do Centro-Sul inteiro. Ele não é um disco autoral, não tem apenas músicas minhas. Eu estou terminando esse disco e já pensando no próximo. Já estou compondo instrumentais. Eu tinha medo de gravar esse disco, das músicas não se encaixarem em uma obra só.

Esse receio fez com que você demorasse a gravar o primeiro álbum?

Sim, eu comecei a fazer e parei algumas vezes. Eu não sabia se era aquilo o que eu queria. Essa coisa do mercado acabou me atrapalhando um pouco, ter que lidar com isso. Me faltou um pouco de coragem para encarar o mercado, mas agora veio.

Você vem se apresentando com o Turma Que Faz há algum tempo. Qual a sua relação com o projeto?

Eu participo desse projeto com a Doroty há um tempo, faço outros trabalhos com ela também, mas aqui na Chapada acho que já foram umas cinco ou seis vezes. Eu venho para cá na época do Encontro, com exceção do ano passado, que a gente gravou o disco Criunaná., então eu vim antes, em maio, e fiquei um mês ensaiando com eles, depois voltei em julho para o lançamento.

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Comentários nesta matéria:

Tadeu disse em 30/07/10 | 09:26
Divulguem mais fotos deste show realizado por este grande artista!







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Fotos e matérias podem ser distribuídas desde que citados os créditos da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge e do fotógrafo.