Entrevista - 17/07/2009

Uma semana de Aldeia Multiétnica na Chapada dos Veadeiros

Fernando Schiavini fala sobre a terceira edição da Aldeia Multiétnica realizada durante o Encontro de Culturas

por Giovanna Beltrão

Foto: Giovanna Beltrão

A Aldeia Multiétnica, espaço de integração e vivência de etnias indígenas, vai ser realizada pela terceira vez consecutiva dentro do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Criada para que os grupos possam compartilhar ritos, cantos, danças, língua, costumes e tradições, a Aldeia conta com Rodas de Prosa, oficinas de artesanato e pinturas corporais, exposições de fotografia e exibições de vídeos produzidos pelos próprios índios para enriquecer a sua programação. O Assessor Indigenista do Encontro, Fernando Schiavini, que convive com etnias de todo Brasil há mais de 35 anos, falou em entrevista concedida à Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge sobre a criação da Aldeia Multiétnica e a importância desta experiência para o evento.

O que é a Aldeia Multiétnica?

A Aldeia Multiétnica é um espaço dentro do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, onde todos os anos se reúnem etnias indígenas de várias partes do país para trocar culturas, experiências, vivências, comidas, tradições e histórias. Os problemas das etnias também são debatidos por meio das Rodas de Prosa, e eles ainda mostram seus vídeos e participam de oficinas. É um espaço multiuso, de múltiplas atividades.   

Esta é a nona edição do Encontro de Culturas Tradicionais e a terceira da Aldeia Multiétnica. Como a Aldeia surgiu como parte do Encontro?

O Encontro sempre contou com a presença indígena, mas era muito pequena. Geralmente vinham uma ou duas etnias, mas não havia espaço na programação destinado a elas. No ano de 2007, a coordenação do evento resolveu dar um destaque maior às etnias indígenas. Então foi proposta a criação da Aldeia Multiétnica. Nós pensávamos que iria ocorrer apenas naquele ano, mas a coisa deu tão certo, os índios, os visitantes e a mídia gostaram, a ideia se repetiu e já vai para o terceiro ano. Eu espero que continue por muitos anos por que é muito bonito.

Como é a dinâmica da Aldeia Multiétnica? Como ela funciona?

A Aldeia Multiétnica funciona dentro de um sistema de aldeia indígena mesmo. Essa era a proposta inicial. Nós temos os fundadores da Aldeia, que foram as primeiras etnias que vieram participar, em 2007. Eles voltam todos os anos para receber as outras etnias convidadas e os visitantes da Chapada. Os líderes dessas primeiras etnias formam uma espécie de conselho e, por meio dele, combinam a programação e administram a Aldeia. Durante o Encontro, a Aldeia é assumida, a cada dia, por uma das etnias participantes. No prazo de 24 horas, cada uma mostra o que é possível mostrar da sua cultura: comidas, canto, dança, artesanato, pinturas corporais, etc. A Aldeia é bem dinâmica e o  visitante tem a nítida impressão de estar em uma aldeia indígena multicultural.

Por que a Aldeia Multiétnica ocorre durante a primeira semana do Encontro, antes das demais atrações?

Em 2007, essas duas partes do evento, a Aldeia e a programação do Povoado de São Jorge, ocorreram simultaneamente. A programação acontecia lá e aqui. Inclusive algumas comitivas indígenas também vinham para São Jorge para se apresentar. No entanto, verificou-se que a programação era muito extensa e os visitantes da Chapada ficavam divididos entre as duas programações. Então, em 2008, nós decidimos separar para que as duas partes tivessem plenitude. Assim, todos os visitantes e nativos, teriam disponibilidade de participar da Aldeia e também da programação do Povoado.

Existe algum critério para escolher as etnias que participam da Aldeia Multiétnica?

A dinâmica da Aldeia e as opiniões relacionadas às etnias convidadas são dadas  pelas etnias que participaram da primeira Aldeia, em 2007. Esses grupos vêm cada vez mais bem representados, são eles: os Kaiapós, os Krahôs, os Kamayurás, os Kariri-Xocó, os Fulni-ô. Todos os anos a produção procura convidar etnias que nunca participaram, para enriquecer a experiência. A Aldeia segue a propriedade de comunidade administrada pelos próprios índios, do apoderamento do espaço cultural. Então, são eles quem decidem.

Na sua opinião, qual a melhor experiência da Aldeia Multiétnica?

Todas as experiências são muito interessantes, mas o que mais me chamou atenção, como indigenista, é a troca de culturas, principalmente no canto, na dança e no instrumental que algumas etnias fazem durante o Encontro. Eu jamais poderia imaginar, por exemplo, os Kaiapós, que são do tronco linguístico Jê trocarem músicas, durante várias horas com os Kamayurás, que são tupi-guarani puros e não têm nenhuma semelhança com eles. Aí a coisa fica muito bonita. Eu realmente jamais imaginaria que duas etnias tão diferentes pudessem trocar sons.

Como o público do Encontro de Culturas Tradicionais recebeu a ideia da Aldeia Multiétnica?

A recepção tem sido ótima. A maior parte do público é daqui, alguns são descendentes também. E esse ano, nós estamos fazendo um esforço maior para possibilitar a visita do pessoal nativo à Aldeia, que fica a 7 quilômetros de São Jorge. Às vezes, muitas pessoas querem ir, mas não podem por falta de transporte. Esse ano nós pretendemos melhorar a questão do acesso.  

Qual a sua expectativa para a Aldeia Multiétnica esse ano?

Eu espero que a experiência da Aldeia continue crescendo e enriquecendo o Encontro. Existe uma proposta de se criar Pontos de Cultura dentro dessas etnias e, talvez, a Aldeia vire um Pontão de Cultura onde seja possível dar capacitação, assistência técnica e se faça a interligação entre os grupos. Outra proposta interessante é a de melhorar a estrutura da Aldeia e realizá-la mais de uma vez por ano. Tudo isso vai ser discutido pelas lideranças que participarão do Encontro. Mas, se a Aldeia ficar bonita, como ficou nos outros dois anos, já está de bom tamanho.

Envie seu comentário

*Seu nome:
*E-mail (não será publicado):
Site (inclua o http://)
*Comentário:
*Preencha a resposta:
* campos obrigatórios. Os comentários
são mediados, portanto, aguarde
a liberação.

Comentários nesta matéria:

fernanda schiavini disse em 22/07/09 | 10:35
Orgulho de ter um poeta feito vc como pai...







Desenvolvido por CarlosFilho.com2004 - 2010. Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Um projeto da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e Asjor.

Fotos e matérias podem ser distribuídas desde que citados os créditos da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge e do fotógrafo.