
28/07/2008 17:01
Cultura
Avá–Canoeiro – Solidão como herança
por Sinvaline Pinheiro, da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge
| Sinvaline Pinheiro |
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Os avá-canoeiro vivem no norte de Goiás perto de Minaçu, são 5 pessoas que conseguiram escapar do massacre a que foi submetida sua tribo pelos invasores de suas terras no ano de 1969. São eles: Matcha (72); Naquatcha (67); Tuia (37); Iawí (57) e o filho Trumak (21). Recentemente Tuia foi para Mato Grosso morar com um índio de outra etnia.
Na época do massacre Matcha conseguiu fugir grávida de Tuia com Naquatcha e Iawí e por 12 anos eles se esconderam nas matas conseguindo sobreviver comendo morcegos e algumas frutas silvestres.
Em 1981 a Funai reconheceu esse pequeno grupo que foi estabelecido numa área de 38 hectares, perto do rio Tocantins. Com a construção da hidrelétrica de Serra da Mesa, cerca de 3 mil hectares foram ocupados por Furnas. A empresa paga roylalties para eles. Com isso possuem casas de alvenaria, comida e uma assistência direta da empresa.
Trumak fala melhor, Iawi tem uma pronúncia quase incompreensível e as mulheres não falam o português, a não ser algumas palavras. Segundo Trumak, Matcha gosta de criar pássaros amarrados por uma corda fina, são: juriti, pomba, jacu, curiango, papagaio e outros. Até o cachorro fica sempre amarrado com medo do "miau" (onça). Na tentativa de manter seus costumes constroem ranchos de palha, caçam, pescam e plantam.
No Encontro de Culturas na Aldeia Multiétnica, os avá canoeiros se diferenciam dos outros indígenas em tudo: Iawí é arredio, quando percebe que vai ser abordado para conversas, foge e até corre. Anda de cabeça baixa, custa olhar de frente e às vezes quando resolve conversar diz :
- Vocês mataram meu pai!
A semana desse Encontro de Etnias Iawi nunca sorria e estava sempre andando de um lado para outro, quando cansado ficava de longe olhando o movimento de pessoas. Trumac às vezes fala, mas na maioria das vezes fica falando sozinho e em voz alta.
Iawí quando fala da filha, a Tuia, fica nervoso e diz acenando:
- Foi embora!
Mostra uma grande revolta no olhar, não aceita a filha ter se juntado com um índio de outra tribo. Mas como são parentes próximos e seus costumes não permite o incesto, o único jeito de aumentar a família é com essa união de Tuia, mesmo contrariando Iawí.
Sabe-se que a mãe de Iawí teve muitos abortos enquanto vivia escondida nas matas, pois para eles o choro de um bebê poderia denunciar o esconderijo e assim usava ervas para abortar ou não se engravidar.
Esse grupo de quatro pessoas traduz bem a situação do índio. O olhar de medo, os gestos de defesa denunciam o estado de espírito em que vivem, não só os avá-canoeiros, mas todas as etnias. Comprovando assim, que durante séculos o homem branco deixou como herança para o indígena uma grande solidão e um futuro incerto.
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